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Nome: blogdoruy
Local: Rio de Janeiro, Sudeste

24.3.06

Reencontro quente

Duas da tarde de um dia típico de sol do verão carioca e eu caminho pelas calçadas do centro da cidade, à procura de sombras, ainda que pequenas, enquanto me esforço para não esbarrar nas pessoas que ziguezagueiam à minha frente, com suas fisionomias suadas e descompostas.
De repente, ao me desviar de um camelô, não pude evitar a colisão com uma velhinha que ia mais adiante. Preocupado em evitar sua queda, atiro-me ao chão e recebo seu pequenino corpo em meio aos meus braços.
― Dona Cremilda! Que maneira mais estranha de nos reencontrarmos – falei para ela enquanto nos levantávamos, sacudindo poeira e esfregando raladuras.
― Oi, meu filho. Que pressa é essa que nem viu esta pobre velha na sua frente?
Dona Cremilda foi empregada na minha casa durante anos. Mulher simples e inteligente, ouve muito e fala o essencial. Quase sempre com muita sensatez e lógica impecável.
Ela me olhou preocupada e disse:
― Você não vai falar daqueles velhos assuntos, não é, meu filho?
Os “velhos assuntos” diziam respeito à viagem do homem à lua e à prisão de Sadam Hussein, temas sobre os quais Dona Cremilda, usando de sua lógica muito própria, tomara posições que contrariavam todo o noticiário sobre eles.
― Não, Dona Cremilda, aquilo já passou. Deixa pra lá. Vamos tomar um refrigerante para comemorar nosso reencontro?
― Vamos, meu filho, que o calor está de matar, mas só quero saber se você está acompanhando essa nova mentira que estão inventando sobre o Arafáti?
― Que mentira, Dona Cremilda?
― Todo mundo diz que ele está internado num hospital de Paris, mas ninguém vê ele. Sabe o que aconteceu, meu filho? O Shalom matou ele e fica todo mundo embromando. Daqui a pouco ele aparece lá em Paris, mortinho da silva, no hospital e todo mundo pensando que foi da doença. Mentira braba, meu filho, mas não pra cima de mim.
― Mas, Dona Cremilda, os franceses não iam se prestar a um papel desses. Além disso, o nome do homem que a senhora diz que matou o Arafat é Sharon. Shalom quer dizer paz e isto é a última coisa que o Sharon quer na Palestina.
― ` brigada pela informação, meu filho, mas pra mim, francês, americano, inglês é tudo vinho da mesma pipa. E estragado. No fim eles se juntam e fazem a gente aqui de bobo. É tudo mentiroso.
Aproveitei a exaltação da Dona Cremilda e resolvi provocá-la:
― Dona Cremilda, o que a senhora acha das declarações do Bin Laden na TV?
― Xi, meu filho, lá vem você de novo. Esse cara já morreu faz tempo, se ele foi burro de ficar escondido nas cavernas esperando as bombas dos americanos ou então está vivendo numa ilha grega, cheio da grana e de mulheres. Vai ver até bate grandes papos com o Sadam que, como já lhe disse, saiu do Iraque, muito antes que os americanos chegassem lá.
― A senhora tem cada versão tão diferente de todo mundo, Dona Cremilda, que eu às vezes fico pensando se não tem mesmo razão...
― Meu filho, quantas vezes eu já lhe disse, desde o tempo que eu morava na sua casa, que você tem estudo, mas é muito ingeno? Acredita em tudo que os jornais dizem. A velha aqui não tem instrução como você, mas vê as coisas além das notícias que já vêm prontas pra todo mundo engolir.
― É, Dona Cremilda, faz sentido... Olhe, chegamos a um barzinho. Vamos beber algo bem geladinho?
― Pensando bem, meu filho, acho que não quero nada, não. Os refrigerantes só me fazem dar azia e água mineral não tem gosto de nada. Prefiro tomar o meu chá geladinho quando chegar lá em casa. Você pode me botar dentro do meu ônibus? Ainda é o mesmo de sempre.
― Que nada, minha querida amiga. Hoje a senhora vai de táxi, pois merece muito esse pequeno conforto.
―Que desperdiço, meu filho, mas como as pernas da velha estão cada vez mais fracas, eu vou aceitar. Um grande beijo, meu filho.
Embarquei Dona Cremilda, deixando a corrida paga (ela ia se enrolar toda com o troco, pois contas nunca foram o seu forte) e, enquanto o táxi se afastava, pude notar um sorriso na velhinha que me pareceu de pena da minha ignorância sobre os grandes acontecimentos do mundo atual.
Grande figura, a Dona Cremilda, mas toda vez que a encontro acabo sempre me perguntando: e se ela tiver mesmo razão?

Novembro, 2004.