Cansado de ser carioca
Cidade maravilhosa, cheia de encantos mil
Cidade maravilhosa
Coração do meu Brasil
.....................................................
Jardim florido de amor e saudade
Terra que a todos seduz
“André Filho”
Finalmente a temperatura caiu , anunciando a chegada do outono. Chuvas fortes e vento frio completam o quadro que, para o morador desta desgastada cidade, outrora maravilhosa, é quase uma calamidade (mais uma).
Nascido e criado por aqui, posso assegurar que não sou um típico carioca da gema. Querem ver? Comecemos pela temperatura, já citada pouco antes. Para o meu gosto, os termômetros jamais registrariam mais de 25ºC. Fresquinho, sem chegar ao frio. Para ser perfeito, somente se a umidade diminuísse uns 20%.
Ah, como ia ser bom demais dormir com aquelas cobertinhas jogadas por cima, até o pescoço, com um ligeiro ventinho cortando os ares lá fora, sacudindo brandamente a janela do quarto. Sair à rua, no verão carioca é ato de insensatez. Só mesmo para quem é obrigado a trabalhar. Tempo quente, é coisa para rico. Dorme com ar condicionado, acorda e circula pela casa, toda ela servida por ar condicionado central. Entra no carro e liga o ar condicionado; salta na garagem de seu escritório, que também é refrigerada. Trabalha o tempo todo com ar condicionado e, ao fim do dia, a mesma tediante rotina: ar condicionado no carro e em casa. De vez em quando, nos finais de semana, doura-se à beira da piscina. Quando o ar condicionado o satura, viaja para as ilhas gregas e lá tira “merecidas férias”. Enquanto isso, nós aqui nesta antiga capital da República, debaixo de 40º à sombra...
Outra característica que não faz de mim um típico morador desta São Sebastião: odeio o tal “jeitinho”, tão louvado pelos que por aqui habitam.
“Tá difícil? Deixa comigo” — é o que mais se ouve por estas bandas quando se trata de resolver problemas de qualquer natureza. Geralmente recuso a oferta e tento enfrentar a dificuldade na base do exame racional da situação.
Tenho um amigo que deu um “jeito” no imposto de renda e tal situação perdurou enquanto a informatização ainda não dominava o setor. Ele recebia os formulários (ninguém ainda declarava pela Internet) e, simplesmente, os rasgava. Fez isso durante cinco anos e não sei o que aconteceu depois, pois é o tipo de fraude que o Leão, ao descobrir, urra no ouvido da vítima até que ela resolva acertar seus débitos — com juros e correção monetária, é claro!. Duvido muito que o seu “jeitinho” o tenha livrado dessa. Talvez lhe tenha faltado sutileza. Sonegar aos pouquinhos lembra “jeitinho” carioca, mas dar um soco no focinho do Leão e ficar rindo dele, convenhamos que é demais.
Seja lá como for, o certo é que eu me acerto melhor com a maneira de ser do pessoal que vive no sul.
Uma vez estive em Gramado, às vésperas do Natal, numa excursão da falecida Soletur e pude presenciar duas situações que muito me impressionaram.
A primeira delas dizia respeito à decoração de uma imensa árvore de Natal, armada no centro de uma praça pública. Ela nada tinha de excepcional, mas havia umas imensas bolas coloridas, penduradas á altura da minha cabeça que logo me fizeram pensar, cariocamente:
“Só quero ver amanhã se vai sobrar alguma!”.
Na manhã seguinte, não faltava um único dos enfeites. Tudo exatamente como havia sido disposto nas vésperas. Pasmei!
Sentei-me num banco de praça para ler o jornal do dia e aí veio a maior das surpresas. Um menino chegou com sua bicicleta de sei lá quantas marchas, tombou-a no gramado que subia para uma casa sem muros em sua volta, atravessou a rua, entrou numa casa comercial e lá ficou por bastante tempo. Minha inquietude foi crescendo. Olhei em volta, várias vezes, para ver se alguém corria em direção à bicicleta para levá-la, solidário que me tornara com a inocência do menino. Ninguém sequer olhou para a bicicleta. O dono, após fazer as compras retomou-a e lá se foi, pedalando lenta e despreocupadamente. Aí o queixo caiu de vez...
No pouco tempo em que estive na cidade, toda ela enfeitada de jardins floridos e ruas perfeitamente arborizadas, jamais vi alguém arrancar uma só muda de planta. Foi um verdadeiro banho de civilidade.
O Rio de Janeiro continua lindo, mas estamos precisando de administradores com sensibilidade para tentar pôr nos eixos tanto desprezo por uma cidade que tem de tudo para ser, de fato, maravilhosa.
Cantar os atributos da cidade em hino não basta. É preciso amá-la, acima de todos os interesses de natureza estritamente pessoal. Caso contrário, só copiando o que disse uma vez o Tom Jobim, quando lhe perguntaram se o Brasil tinha saída. Ele respondeu, com aquela fina ironia que o caracterizava:
“Claro que tem. O Galeão”.
Basta trocar Brasil por Rio de Janeiro, pegar as malas e dizer adeus, à “terra que a todos seduz”.
17/04/2006
Cidade maravilhosa, cheia de encantos mil
Cidade maravilhosa
Coração do meu Brasil
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Jardim florido de amor e saudade
Terra que a todos seduz
“André Filho”
Finalmente a temperatura caiu , anunciando a chegada do outono. Chuvas fortes e vento frio completam o quadro que, para o morador desta desgastada cidade, outrora maravilhosa, é quase uma calamidade (mais uma).
Nascido e criado por aqui, posso assegurar que não sou um típico carioca da gema. Querem ver? Comecemos pela temperatura, já citada pouco antes. Para o meu gosto, os termômetros jamais registrariam mais de 25ºC. Fresquinho, sem chegar ao frio. Para ser perfeito, somente se a umidade diminuísse uns 20%.
Ah, como ia ser bom demais dormir com aquelas cobertinhas jogadas por cima, até o pescoço, com um ligeiro ventinho cortando os ares lá fora, sacudindo brandamente a janela do quarto. Sair à rua, no verão carioca é ato de insensatez. Só mesmo para quem é obrigado a trabalhar. Tempo quente, é coisa para rico. Dorme com ar condicionado, acorda e circula pela casa, toda ela servida por ar condicionado central. Entra no carro e liga o ar condicionado; salta na garagem de seu escritório, que também é refrigerada. Trabalha o tempo todo com ar condicionado e, ao fim do dia, a mesma tediante rotina: ar condicionado no carro e em casa. De vez em quando, nos finais de semana, doura-se à beira da piscina. Quando o ar condicionado o satura, viaja para as ilhas gregas e lá tira “merecidas férias”. Enquanto isso, nós aqui nesta antiga capital da República, debaixo de 40º à sombra...
Outra característica que não faz de mim um típico morador desta São Sebastião: odeio o tal “jeitinho”, tão louvado pelos que por aqui habitam.
“Tá difícil? Deixa comigo” — é o que mais se ouve por estas bandas quando se trata de resolver problemas de qualquer natureza. Geralmente recuso a oferta e tento enfrentar a dificuldade na base do exame racional da situação.
Tenho um amigo que deu um “jeito” no imposto de renda e tal situação perdurou enquanto a informatização ainda não dominava o setor. Ele recebia os formulários (ninguém ainda declarava pela Internet) e, simplesmente, os rasgava. Fez isso durante cinco anos e não sei o que aconteceu depois, pois é o tipo de fraude que o Leão, ao descobrir, urra no ouvido da vítima até que ela resolva acertar seus débitos — com juros e correção monetária, é claro!. Duvido muito que o seu “jeitinho” o tenha livrado dessa. Talvez lhe tenha faltado sutileza. Sonegar aos pouquinhos lembra “jeitinho” carioca, mas dar um soco no focinho do Leão e ficar rindo dele, convenhamos que é demais.
Seja lá como for, o certo é que eu me acerto melhor com a maneira de ser do pessoal que vive no sul.
Uma vez estive em Gramado, às vésperas do Natal, numa excursão da falecida Soletur e pude presenciar duas situações que muito me impressionaram.
A primeira delas dizia respeito à decoração de uma imensa árvore de Natal, armada no centro de uma praça pública. Ela nada tinha de excepcional, mas havia umas imensas bolas coloridas, penduradas á altura da minha cabeça que logo me fizeram pensar, cariocamente:
“Só quero ver amanhã se vai sobrar alguma!”.
Na manhã seguinte, não faltava um único dos enfeites. Tudo exatamente como havia sido disposto nas vésperas. Pasmei!
Sentei-me num banco de praça para ler o jornal do dia e aí veio a maior das surpresas. Um menino chegou com sua bicicleta de sei lá quantas marchas, tombou-a no gramado que subia para uma casa sem muros em sua volta, atravessou a rua, entrou numa casa comercial e lá ficou por bastante tempo. Minha inquietude foi crescendo. Olhei em volta, várias vezes, para ver se alguém corria em direção à bicicleta para levá-la, solidário que me tornara com a inocência do menino. Ninguém sequer olhou para a bicicleta. O dono, após fazer as compras retomou-a e lá se foi, pedalando lenta e despreocupadamente. Aí o queixo caiu de vez...
No pouco tempo em que estive na cidade, toda ela enfeitada de jardins floridos e ruas perfeitamente arborizadas, jamais vi alguém arrancar uma só muda de planta. Foi um verdadeiro banho de civilidade.
O Rio de Janeiro continua lindo, mas estamos precisando de administradores com sensibilidade para tentar pôr nos eixos tanto desprezo por uma cidade que tem de tudo para ser, de fato, maravilhosa.
Cantar os atributos da cidade em hino não basta. É preciso amá-la, acima de todos os interesses de natureza estritamente pessoal. Caso contrário, só copiando o que disse uma vez o Tom Jobim, quando lhe perguntaram se o Brasil tinha saída. Ele respondeu, com aquela fina ironia que o caracterizava:
“Claro que tem. O Galeão”.
Basta trocar Brasil por Rio de Janeiro, pegar as malas e dizer adeus, à “terra que a todos seduz”.
17/04/2006
