blogdoruy

Nome: blogdoruy
Local: Rio de Janeiro, Sudeste

11.12.06

10.12.06

Conto de Natal

O mês de dezembro mal começava e as atividades na Lapônia já iam intensas: duendes ajudavam a colocar presentes, sob a supervisão de Papai Noel, que lhes ia dizendo o que pôr primeiro no saco, a fim de facilitar sua tarefa, na hora da entrega; costureiras ajeitavam as calças vermelhas do bom velhinho que, a cada ano aumentavam de tamanho graças, principalmente, à quantidade de doces que consumia, quando da chegada às casas de família, na noite de Natal. Era uma rabanada aqui, uma fatia generosa de panetone ali e, para encerrar, torta de maçã acompanhada de creme de chantili. Papai Noel chegava a revirar os olhos, tamanha a satisfação, mas...o peso ia aumentando.
Nos estábulos a agitação não era menor: as renas eram escovadas e os metais do trenó, polidos. As partes que se haviam desgastado ao peso do usuário iam sendo substituídas.
Na sapataria as botas recebiam atenção especial, tratadas com esmero para, por mais um ano, resistirem ao intenso frio, ao contato com a neve e com as paredes ásperas das chaminés por onde Papai Noel gostava de entrar.
Na noite de Natal tudo estava visto, revisto e conferido. Noel acertou os óculos, repassou as listas, subiu no trenó, sacudiu as rédeas e levantou vôo, despedindo-se, com vigorosos acenos, de seus ajudantes e, em especial, de Mamãe Noel que, como de hábito, ainda lhe fazia as derradeiras recomendações.As renas deslizaram rapidamente pelos céus e Papai Noel foi cumprindo, uma a uma, suas entregas pelo mundo, com a eficácia de sempre. Olhando a longa lista viu que as próximas deveriam ser feitas no Brasil e, sacudindo mais uma vez as rédeas, ordenou docemente às renas que para lá se dirigissem.
“Este mundo mudou muito ― pensou Noel. Tudo ficou estranho. Quase não consigo mais encontrar chaminés nas grandes cidades. Tenho de descer sobre edifícios altíssimos, retirar telhas, ficar procurando em corredores nem sempre bem iluminados, os números dos apartamentos e até já me acostumei a dar um “jeitinho” de abrir portas ou janelas. Depois, dá um trabalhão fazer o caminho de volta, repondo tudo nos devidos lugares. Além disso, os pedidos estão ficando cada vez mais complicados: bicicletas com uma infinidade de marchas, jogos eletrônicos, videocassetes, DVDs, microcomputadores, patins com quatro rodas, em linha. Os pobres duendes têm, a cada ano, cada vez mais trabalho para produzir tudo isso.”
Seus pensamentos foram interrompidos por uma suave freada das renas, indicando o local da primeira entrega: a Mansão da Lagoa, no condomínio Rosa Chá, em plena Barra da Tijuca. Papai Noel ainda teve tempo de olhar em volta e comentar, abrindo largo sorriso:
“Sempre linda esta cidade. Quando terminar as entregas pretendo dar uma passadinha lá pelos lados do Corcovado e render justas homenagens ao Cristo Redentor.”
Estacionou o trenó em pleno ar e reparou que aquela casa possuía chaminé. Preparou o saco, amarrou uma corda no trenó e começou a descer rumo a ela.De repente, uma luz intensa quase o cegou e ele ouviu vozes ao lado da casa. Uma delas, mais poderosa, lhe gritava:
― Desce daí, velho safado, senão vamos te mandar chumbo. Que ladrãozinho mais cheio de idéias. Até helicóptero disfarçado de trenó o bandidão bolou. Vamos te dar um couro, marginal.
Papai Noel ainda tentou convencê-los com sua famosa risada, mas em vão.
― Tem um minuto para descer, ou leva bala! berrou-lhe mais uma vez aquele que parecia ser o chefe do grupo.
"É a primeira vez que tenho tão singular recepção, pensou Noel consigo mesmo. Vou descer e me identificar. Assim acaba essa brincadeira e posso continuar com as entregas.
Fez sinal para as renas e elas o pousaram, suavemente, ao lado do grupo.
― Ho, ho, ho, meus amigos. Estou trazendo os presente da garotada desta casa.
― Aí, mermão. Inventa outra. O papai da garotada daqui já comprou tudo e deixou junto da árvore. Nós mesmos fomos encarregados de fazer a decoração da sala. Agora vai explicando direitinho essa tua jogada pra gente aprender e evitar futuros assaltos como este. Vai, desembucha logo.
Noel não estava entendendo aquele tipo de linguagem. Ficou parado, sem ação e recebeu uma bofetada que lhe amassou um dos aros dos óculos. Caiu e foi algemado pelos seguranças do condomínio.
― Por que me bateu, senhor? Só estou querendo cumprir minha missão de todo ano.
― Cala a boca, marginal. Levanta que já chamamos a patrulhinha pra te levar pra delegacia.
O velhinho foi sendo empurrado e ficou de pé, encostado a uma árvore do jardim da mansão.
“Que estranho ― pensou consigo mesmo. Deve ser alguma brincadeira moderna para me recepcionar. Só que aquele tapa quase me quebra os óculos e eu não tenho outros. Mamãe Noel sempre diz para eu trazer um par de reserva e eu acabo esquecendo.”
A patrulhinha chegou e, após troca de cumprimentos com o grupo, os soldados empurraram Papai Noel, que caiu no banco de trás, diretamente contra a porta do outro lado do carro. Um “galo” surgiu imediatamente em sua cabeça que, de tão confusa, já não articulava os pensamentos com clareza, mas ainda conseguiu ouvir a gritaria dos homens:
― Pega, pega essas hienas. Não deixa fugir.Vários tiros foram dados e o chefe do grupo esbravejou:
― Cambada de incompetentes. Aquilo não são hienas. São imitações de renas para camuflar o helicóptero, que deve ter um mecanismo de vôo automático sincronizado com o relógio desse, desse...Papai Noel. Vocês não são capazes de acertar num elefante a dois metros de distância. Tinha de mirar nas hélices. Nas hélices, suas bestas.Os seguranças ouviram em silêncio e apenas se entreolharam. Nada disseram, mas cada um tinha a certeza de não ter visto nada que se parecesse com hélices e muito menos barulho e ventania de helicóptero decolando.A sirene da patrulhinha anunciou a partida e, em breve, Noel era retirado do veículo debaixo de empurrões e cascudos. Ele mantinha os olhos fechados para imaginar que tudo aquilo não passava de um momentâneo pesadelo. Quando os abriu estava diante de uma grande mesa onde um homem, em mangas de camisa, o olhava com ar de superioridade.
― Bom dia, Papai Noel. Que lindos brinquedos o senhor deve ter aí na sua sacola. Certamente os que trouxe para entregar ao meu filho devem estar entre eles. Vamos fazer um trato: se o senhor me disser o que ele lhe pediu, está livre e merecedor de todas as desculpas pela ação meio vigorosa dos patrulheiros ― falou o delegado com voz sarcástica e sorriso de desdém.
― Se o senhor delegado me disser o nome de seu filho, me der o seu endereço e me deixar consultar a minha lista eu logo lhe direi ― respondeu Noel.
― Detetive Pega Leve! Solte uma das mãos do querido Papai Noel.
― O senhor tem certeza, doutor Fagundes? Olha que ele pode ser perigoso.
― Pode deixar. Eu me garanto.
O delegado abriu a gaveta de sua mesa e de lá tirou uma escopeta, deixando-a em cima da mesa, bem ao seu alcance.
Assim que teve solta uma das mãos, Papai Noel ficou aguardando as informações que pedira ao delegado.
― Aí, Pega Leve! O otário tá mesmo a fim de debochar da minha cara. Confere aí, marginal. Nome do menino: Nepomuceno de Assis Cortamundo. Endereço: rua da Páprica Madura, 87 ― Bairro Iglu ― Vila Kennedy ― Rio de Janeiro.
Noel desamassou os óculos, limpou-os, tirou do bolso, com todo cuidado a lista de endereços e, após consultá-la disse ao delegado:―
"Doutor Fagundes, os dados que acaba de me fornecer não conferem com os que estão na minha relação. O menino Nepomuceno, que se assina Nenê, segundo as informações que escreveu na cartinha para mim, mora na travessa Bento Siqueira, 37 ― casa 2 ― Vila Rosenda ― Rio de Janeiro.
O rosto do delegado empalideceu e o Pega Leve derrubou a xícara de café que segurava. Eles ficaram fitando Noel, mudos de espanto. O endereço era exatamente o do delegado e, ainda por cima, o velho havia acertado com o apelido familiar do Nepomuceno.Após alguns minutos o doutor Fagundes, com voz rouca e quase sumida, disse, entre dentes:
― ...e quais foram os presentes que o meu filho lhe pediu?
Passando a mão suavemente sobre o “galo” que lhe crescera na cabeça, Noel enumerou:― Primeiro uma prancha de surfe, depois uma bola de futebol americano e, finalmente, uma lambreta.
Fagundes arrepiou-se todo. Era exatamente o que o seu querido Nenê tinha escrito na carta a Papai Noel, aberta por ele antes de fazer de conta que a poria no correio, como todo ano.
― Está certo. Estou quase acreditando, mas onde está a carta? ― disse o delegado, a essa altura totalmente confuso.
― A correspondência fica arquivada em meu escritório, na Lapônia, sob administração de Mamãe Noel. Só trago comigo a relação dos endereços, os nomes da crianças e seus pedidos.
― Vá lá, mas quero saber uma coisinha mais antes de deixá-lo ir. Como consegue carregar uma lambreta aí dentro? ― e o delegado apontou diretamente para o saco de presentes que estava ao lado de Noel.
― Simples, doutor Fagundes. Consultada a lista, basta que eu coloque minha mão dentro do saco e pronuncie, mentalmente, o nome do brinquedo para que ele apareça diante de mim, não importa peso ou tamanho.
― O doutor me desculpe, mas é a maior furada do cara aí. Duvido ele fazer uma demonstração agora, diante de nós ― interveio o Pega Leve.
― Gostei da idéia, Pega. O velhote deve é ler pensamento. Maior impostor. Enquadro ele nas penas da lei, já, já. Vamos lá Papai Noel. Tire a lambreta do Nepomuceno de dentro desse saco. Agora!
Papai Noel olhou os dois e respondeu tranqüilamente:
― Eu não devia fazer isso, doutor. O presente deve sempre ser deixado na casa de quem o pede por carta, mas como os senhores estão duvidando da minha identidade e eu preciso acabar de fazer as entregas dos presentes, vou pedir ao doutor Fagundes o favor de encaminhar ao Nenê a lambreta, com um abraço e um beijo carinhoso.Doutor Fagundes e Pega Leve recuaram discretamente e Papai Noel, com a maior naturalidade, meteu a mão no saco de brinquedos, balbuciou umas palavras e, ao retirá-la, fez surgir no meio da sala o seu trenó com as seis renas . Foi papel para todo lado. As renas, assustadas por se verem dentro de cômodo tão pequeno, começaram a dar coices e acabaram por quebrar a mesa do delegado. Ele e o detetive saíram porta fora, apavorados, aos berros de socorro, enquanto Papai Noel, tomando assento em seu trenó, atravessava a janela balançando a cabeça em sinal de desaprovação:
― Este mundo está mesmo louco. Como é que alguém ainda duvida que eu exista? Ho, ho, ho.
O inquérito administrativo aberto para apurar os fatos e os prejuízos causados aos cofres públicos, tais como: mesa de jacarandá da Bahia, totalmente destruída e janela do gabinete do delegado desaparecida está parado porque os peritos não conseguiram descobrir a causa de tudo e mais confusos ainda ficaram porque nem têm idéia de como fezes de animal para eles desconhecido foram parar em todas as paredes, impulsionadas, certamente, pelos possantes ventiladores existentes no local.
O Pega Leve entrou com atestado médico alegando estresse e pediu férias no dia seguinte ao acontecido.Quanto ao doutor Fagundes, conta-se que nunca mais foi o mesmo. Pouco fala com os funcionários da delegacia e deu entrada no seu pedido de aposentadoria, embora ainda não tenha completado vinte anos de serviço. Vive pelos cantos da repartição, fuma furiosamente, rói as unhas e toma café o dia inteiro. Às vezes ri alto e nervosamente, repetindo sempre a mesma ladainha, que todos já sabem de cor:
- Não é que o f.d.p. do Papai Noel existe mesmo? Eu vi, eu vi. O Pega Leve estava comigo. Ele viu também. Podem perguntar. Papai Noel existe mesmo. Ele e suas malditas renas.

E se?
A notícia mais sensacional destes últimos tempos foi a prisão de Sadam Hussein. Não cabem aqui comentários político-ideológicos a respeito. Nossa abordagem tem outros caminhos.
Vamos começar aí pela década de 70, do finado século XX, quando foi noticiada a chegada do homem à Lua. Quem viveu naquela época tem claro na retina a filmagem da famosa cena em que os astronautas, após descerem da nave, dão saltos em câmara lenta, num balé que emocionou os espectadores. Ao fundo, elevações típicas da paisagem lunar.
Na noite em que todos vibravam com as imagens do homem chegando à Lua, dona Cremilda, minha faxineira, mulher inteligente e interessada em tudo que acontece no mundo, quando viu os astronautas pulando na superfície lunar disse, na maior tranqüilidade:
― Ah, meu filho. Você acredita mesmo que eles estão na Lua? Para mim isso aí é mentira. Aquele fundo é todo de papelão pintado. Boa noite que eu estou indo dormir.
Anos depois de se aposentar encontrei-a na rua, os cabelos inteiramente brancos, o ar de batalhadora incansável ainda se refletindo no rosto e arrisquei:
― E aí, dona Cremilda? Ainda acha que o homem não esteve na Lua?
― Ah, meu filho. Aquilo foi tudo mentira. Eu vi um filme igualzinho na televisão, outro dia mesmo. Não sei como você, que estudou tanto, continua acreditando naquela enganação...
― Tá bom, dona Cremilda, vamos falar de outro assunto. A senhora soube da prisão do Sadam Hussein?
― E como não haveria de saber, meu filho. Só se fala nisso lá no bairro. O pessoal meu amigo diz que não é o homem, não. É, é, ... um sócio dele.
― Um sósia, dona Cremilda.― É, um homem muito parecido com ele. Na terra do Sadam o que mais tem é homem de cabelo preto e bigodão. Parece tudo com o Sadam. O pessoal do bairro diz que não é ele e que o Bush inventou essa história para continuar mandando nos Estados Unidos.
― Como é que é isso, dona Cremilda? O pessoal acredita que o presidente Bush montou uma farsa para garantir a reeleição?
― Isso mesmo, meu filho. Essa falsa que vo
cê falou aí. Tudo armação. Do Bush junto com o Runsfel e a Condessa.
― Condessa... Ah... entendi. A Condoleeza.
― Tudo farinha do mesmo saco. Pra mim o Sadam está vivinho da silva, na Europa. ‘magina ele ficar num buraco, com cara de mindingo, cheio de piolho e com aquele monte de dinheiro perto dele. Arranjaram um maluco, treinaram ele e agora ficam dizendo que é o Sadam.― Muito interessante, dona Cremilda. E quanto à chegada de uma sonda espacial a Marte. Viu que bonita a paisagem avermelhada e cheia de pequenas pedras, com montanhas ao fundo?
― Olha, meu filho, o papo ta legal, mas o meu ônibus vem chegando. Foi muito bom ver você, mas aceite um conselho da velha que vê as coisas da vida como elas são: pare de continuar acreditando em tudo que americano diz e mostra. Eles sempre fazem uma propaganda danada e aproveitam para levar as historinhas para o cinema e ganhar muito dinheiro. Cê sabe que tá cheio de bobos pra ver essas mentiras, num sabe? O meu dinheiro suado é que eles não levam fácil. Lembra que foi assim com a tal chegada na Lua? Daqui a pouco vem aí um filme sobre a prisão de Sadam e, em seguida, outro sobre as sensacionais descobertas de pedras e morros vermelhos em Marte. Pode escrever o que a velha diz. Um beijo, meu filho.
Acenei-lhe um adeus, mas fiquei pensando: e se dona Cremilda tiver mesmo razão? E se o homem nunca pôs os pés na Lua? Com que cara eu fico depois de ter passado horas a fio, madrugada a dentro, diante da TV, vendo um “filminho” bolado nos estúdios de Hollywood? E se os americanos arranjaram mesmo um “sócio” do Sadam Hussein para reeleger o Bush ― o que pensarão de nós as próximas gerações quando a verdade vier à tona?
Começo a achar que melhor seria se eu não tivesse reencontrado a dona Cremilda...

O mar
Acordo na madrugada e não mais consigo dormir. Enrolo-me nas cobertas, embora faça calor e me encolho todo. Agora, além de insone estou encharcado de suor. Em desespero tento o velho truque da concentração em uma palavra, que vou repetindo, compassadamente, à exaustão. Também não dá certo e, dali a pouco estou detestando aquela pousada, de tão agradáveis lembranças e associações. Reza? Nem pensar. Criado no catolicismo, sabia todas de cor mas, a partir da adolescência contestadora, fui esquecendo um pedaço desta, aquela por inteiro e, ao cabo de poucos anos, nem Ave-Maria me era possível levar até o fim.
De repente, no silêncio da noite, um ruído, ao longe, me chega aos ouvidos. Levanto-me e saio em direção ao som que me atrai. Desço uma rua longa, com luzes brilhando nas pedras irregulares do calçamento e já agora percebo que, à medida que me aproximo do fim da viela, o ruído se transforma em estrondo forte. Ao contornar uma curva, deparo-me com o mar que, de ressaca, atira-se implacável contra a encolhida areia da praia. Aproximo-me, até quase ser tocado pelas águas e aí me sento para apreciar o espetáculo. O verde escuro, batido pela fraca iluminação da rua, assume variedades de tons que se misturam com as franjas brancas de espuma tecendo rendas nas cristas das ondas. Intermináveis túneis vão se formando, logo abaixo do topo das vagas e percorrem toda a extensão da praia, lançando-se sobre ela, formando grandes valas que logo se transformam em extensas e rasas piscinas. A água banha meus pés. Sua temperatura é morna e acolhedora. O vai-e-vem das ondas é contínuo e o barulho começa a me embalar. Deito-me e deixo-me envolver. Tenho visões ciclópicas. Sinto-me, sultão, cavaleiro andante, selvagem de perdidas ilhas do Pacífico. Sou rei de uma terra onde as injustiças não existem e onde a palavra violência sequer consta dos dicionários. Derroto dragões e ofereço minhas vitórias à amada. Velejo tranqüilas lagoas, em barco todo branco, que comando, qual velho e experiente marinheiro ou então me espreguiço ao sol morno e maravilhoso, preparando-me para inebriantes mergulhos. Sou Netuno, comandando com meu poderoso tridente, os humores do mar e a vida de seus habitantes. Estou em transe e dele apenas saio quando a água já me cobre os ouvidos. Quero assim continuar, mas a maré me puxa, com doçura, para o mar. Levanto-me, totalmente anestesiado. Penso ainda ver cavalos-marinhos circulando em minha volta, mas percebo que a euforia vai dando lugar à realidade. Caminho de volta. A distância de volta ao quarto parece-me mínima. É como se eu flutuasse. Subo as pequenas escadas, vagarosamente, empurro a porta, atiro-me sobre a cama e, antes que possa avaliar o que comigo se passou, mergulho no mais profundo, acolhedor e paradisíaco de quantos sonos já pude desfrutar em toda a minha vida.

8.12.06

Trapaça da sorte

Trapaça da sorte


Um clássico ou um tema social? Hitchcock me agrada, mas Woody Allen sempre tem um lugarzinho especial na minha preferência.
Estou nessa dúvida de cinéfilo quando entra na locadora uma jovem sorridente. Cumprimenta o gerente e vai direto a uma grande estante de fitas videocassete, sem tomar conhecimento da minha presença. A loja está em fase de reorganização e as indicações sobre temas, atores e diretores ainda são precárias.
Olho-a, discretamente. Bonita e confiante, ela cantarola, despreocupa, enquanto vira a cabeça, ora à direita, ora à esquerda, tentando ler os títulos.
Depois de algum tempo ela se dirige a um empregado da loja.
― Oi, moço! Eu queria rever um filme que achei muito bom, mas não consigo localizar. Pode me ajudar?
― E qual é o nome do filme, senhorita?
― Do nome eu não me lembro, mas era um com um ator alto e muito bonito.
― É pouco. Preciso de alguma “pista” mais concreta.
― Pista...pista...Ah, já sei: ele era louro e tinha olhos azuis.
― Humm... Alto, bonito, louro, olhos azuis...Vamos adiante. Diga mais alguma coisa, por exemplo, sobre o tema do filme.
― Ah, o filme era... assim... sobre o amor desse lindão por uma mulher também bonita. Agora me lembro bem: eles se beijavam no final do filme.
― Certo, eles se beijavam no final...A mulher era bonita e eles se beijavam no fim. É pouco, é muito pouco
― Pera aí! Ele torcia por um time de beisebol e ela, eu acho não torcia por time nenhum, mas me lembro que ambos tinham dentes perfeitos.
― Senhorita, vamos fazer o seguinte. Anote aqui nesta folha de papel todas essas informações e eu lhe prometo que vou fazer uma pesquisa profunda em nosso acervo. Entre os trinta e cinco mil títulos que temos, certamente vou localizar esse filme. Tão logo consiga, eu entro em contato. Ah, não esqueça de deixar o número de seu telefone..
― Ei, que papo é esse? Venho aqui querendo encontrar um filme, você não me ajuda em nada e ainda quer o meu telefone? Vá se catar, seu bolha!
E a mocinha saiu pisando duro, batendo com força a porta da locadora.
― Que geniozinho danado! ― arriscou o funcionário dirigindo-se a mim.
Nada respondi. Apenas balancei a cabeça afirmativamente.
Escolhi um filme qualquer, paguei e encaminhei-me, rapidamente para a saída, impressionado com a cena surrealista que presenciara. Ia tão concentrado que acabei trombando com a “mocinha do filme”, tão logo abri a porta.da loja. Ainda tentei desviar-me, mas o esbarrão foi inevitável. Gelei, só em pensar no escândalo que ela poderia fazer, diante de uma ocorrência comum do dia-a-dia, mas eis que a jovem, toda sorridente, enfiou-me um papelzinho no bolso da camisa e arrematou:
― Pra’quele bolha nunca que eu ia dar o meu telefone, mas que tal você me ligar hoje à noite, depois da novela das oito?
Saí dali com a cabeça rodando.
“Ligo ou não?” — era a pergunta que me martelava a cabeça.
Afinal, apesar de ser uma graça de menina, ela havia tomado a iniciativa, o que para a minha formação machista era um complicador. E tinha mais: aquele arzinho petulante me intimidava. Como não sou da geração dos “ficantes”, só podia conceber um encontro, pelo menos com uma perspectiva de namoro “para a gente se conhecer melhor” — como se dizia nos velhos tempos.
Exatamente ao final da novela das oito, ou seja, por volta das dez horas da noite, liguei para o número do cartão e enquanto aguardava , ia repetindo o nome: Tatiana.Tatiana, Tatiana. Muito na moda.
— Alô, com quem quer falar?.
— É a Tatiana? Eu sou aquele rapaz da locadora, para quem você deu o seu cartãozinho....
Não consegui terminar. A voz do outro lado ficou estridente e respondeu:
— Nem quero nem saber o seu nome. Você deve ter achado o meu cartão de visitas e vem com essa conversa que eu lhe dei. Que papo mais sem graça.
De início, gelei. Afinal, tinha feito papel de bobo, ligando para uma mulher linda, mas desequilibrada. Depois o sangue me subiu e eu a interrompi:
— Sabe do que mais, sua doida? Já perdi tempo demais com você.
E bati-lhe com o telefone. Estava furioso e decepcionado. A maneira doce como me dissera, ao pé do ouvido: “...que tal me ligar hoje à noite...?” em muito se diferençava da voz agressiva que me respondera há instantes.
De repente, o telefone toca. Fico na dúvida se atendo. A infeliz poderia ter um identificador de chamadas e estaria me ligando para continuar com as suas grosserias. Após quase dez toques, tomei do aparelho, disposto a ser o mais agressivo possível.
— Com quem quer falar? — fui logo dizendo, num tom seco e duro.
— Eu acho que liguei errado. Pensei que era para uma pessoa que conheci hoje, na locadora. Queira me desculpar — arrematou.
E desligou.
Eu já não estava entendendo nada, mas não podia deixar as coisas desse jeito. Tornei a ligar.
— Alô?
A voz era a mesma de poucos instantes.
Arrisquei:
— A Tatiana está?
— Não. Ela acaba de sair. Quem está falando?
Do outro lado, eu ia matutando: “deve ser outra armação. Assim que eu abrir a guarda, ela vem outra vez com os desaforos. Vou lhe dar corda para ver se não é isso mesmo”.
Prossegui:
— Quem você acha que está falando?
— A voz se parece com a daquele rapaz que eu encontrei na locadora, mas está tão agressivo... Não quer continuar a conversar comigo?
A confusão aumentava na minha pobre cabeça. Ela aparentava tranqüilidade. Meio ressabiado, respondi.
— É, sou o rapaz da locadora, mas me responda só uma coisa. Foi você que me atendeu há poucos minutos atrás?
— Não! Deixe eu lhe explicar. Aquela moça que estava na loja era eu, mas o cartão que lhe dei pertence a minha prima, Tatiana, porque o meu telefone quebrou e eu tenho usado o dela para contatos. Ela esteve aqui até poucos minutos, mas saiu depressa, quando eu cheguei e nem pudemos trocar palavras. O meu nome é Cíntia. Pelo visto, você falou com ela e não comigo.
Será que Cíntia estaria dizendo a verdade ou era mais uma armadilha que me preparava? Aquela história de cartão da prima...
— Está bem Cíntia. Vamos nos encontrar hoje? Tem um barzinho perto da locadora e poderemos conversar para esclarecer uma dúvida que ainda tenho. Depois da novela das oito, está bom? Meu nome é Gustavo — menti — e espero que você não se atrase.
— Combinado, Gustavo. Depois da novela das oito.
Encurtando a história. Cíntia era a doce Cíntia, mesmo. Acabei por lhe dizer o meu verdadeiro nome e ela esclareceu minha dúvida.
— Tive um namorado que me tratava mal e resolvi que, dali para frente eu faria as minhas escolhas, do meu modo. Só que, depois daquele charme todo que joguei para cima de você, fiquei preocupada que me julgasse “uma qualquer” .Eu, realmente, gostei do seu jeito meio tímido e notei que me olhou algumas vezes, até com insistência. Para não perder a ocasião de revê-lo, resolvi pôr o cartão da Tatiana no seu bolso, mas não havia como explicar para você na hora. Corri para a casa dela, após a novela, mas acabei chegando um pouco tarde. Ela é assim mesmo. Às vezes arrogante, às vezes malcriada. Tem também seus traumas afetivos. Aquela cena que armei para cima do vendedor foi sugestão dela. Tudo pra chamar a sua atenção. Você me perdoa?
E tinha como não perdoar? A voz era doce, os olhos meigos e brilhantes. Não havia como escapar. Estávamos perdidamente apaixonados. Namoramos, casamos e hoje, quando recordamos como tudo começou ela me olha e diz, com aquela voz suave e terna:
- Destino, meu amor, destino. Foi ele que nos empurrou, quase que ao mesmo tempo, para dentro daquela locadora.