A gota de papel
Alexandre olhava, de seu quarto, a chuva cair. Ele sempre achava fascinante observar a água batendo de encontro à janela e formando pingos que desciam velozmente, rumo à parte mais baixa da vidraça. Na rua, imensas poças se espalhavam por toda parte. À medida que a chuva aumentava, a correnteza ia invadindo e tomando tudo. O bueiro mal dava conta da massa de água misturada com papéis, garrafas de refrigerantes, copos plásticos, latas de cerveja, mas ia se agüentando. Meia hora depois, sobre ele, só restava um pequeníssimo buraco para manter a rua livre de uma enchente.
O menino começou a lembrar-se das palavras de seu professor de Ciências, que, ao final de cada aula, sempre fazia projeções de imagens mostrando os efeitos danosos da ação do homem sobre a natureza e sobretudo sobre a qualidade de vida da cidade. Só agora percebia como eram sensatas aquelas palavras. Suas reflexões foram interrompidas pela entrada intempestiva do irmão mais novo. Aos berros, o caçula, aí por volta de seis anos, irrompeu no quarto e se atirou em seus braços. Após acariciá-lo e secar-lhe as lágrimas, Alexandre quis saber o que estava acontecendo. Entre soluços, o pequeno apresentou seu grave problema: queria brincar na chuva e a mãe, depois de tentar explicar-lhe, repetidamente, que aquilo era perigoso, simplesmente passara a chave na porta de saída. Alberto ― esse o nome do caçula ― inconformado, correu para o irmão, na esperança de tê-lo como aliado.
Alexandre acalmou o irmão e lhe repetiu quase as mesmas palavras da mãe. O pequeno ensaiou um novo choro, mas foi levado, pela mão, até a janela para assistir à dança de pingos escorrendo pela vidraça. A princípio, Alberto olhou com alguma curiosidade e até esboçou um sorriso, mas logo se cansou e correu de volta ao andar de baixo, já saudoso da mãe e esquecido da proibição. Alexandre voltou a sua vidraça. A chuva dera uma trégua e a água começava a baixar, vagarosamente, sorvida pela goela daquele pequenino buraco que restara na superfície do bueiro.
De súbito, a voz de sua mãe ecoou pelo quarto, chamando-o. Desceu rapidamente as escadas e foi encontrá-la na copa, os dedos tomados por uma crosta de batatas amassadas misturada a um pó branco. Ela estava preparando um empadão para o almoço e precisava de mais farinha de trigo. O filho teria de ir buscá-la, o mais rápido que pudesse, no mercadinho do bairro.
Alexandre jogou por cima da cabeça uma velha capa e saiu à rua, não sem antes dar uma espiada no bueiro, que continuava a recolher a água da chuva através daquele buraco heróico. Pelo caminho ia pensando que tudo aquilo poderia mudar se as pessoas “tomassem consciência de suas responsabilidades de cidadãos e não transformassem a via pública num verdadeiro chiqueiro.” ― como costumava dizer o professor Chegando ao mercado, apanhou logo o pacote de farinha de trigo e já estava indo de volta quando um menino abordou-o pedindo que comprasse um pacote de balas “pra ajudar a família”. Condoído, Alexandre remexeu os bolsos e deu-lhe algumas moedas, recebendo em troca a guloseima. A chuva voltara a apertar e ele, à medida que se aproximava de casa ia saboreando as balas deixando cair, distraidamente, os papéis impermeáveis no chão. Nem reparou que os mesmos, levados pela correnteza, corriam rumo ao bueiro, tornando ainda menor o espaço para o escoamento das águas. Quando atirou o último papel, já estava bem diante de casa. Entrou rapidamente, entregou a farinha à mãe e voltou para o quarto a fim de apreciar seus pingos na vidraça. Quando olhou para a rua, não mais conseguiu enxergar o bueiro. Uma enorme poça já cobria a calçada e avançava em direção à porta de sua casa. Desceu correndo e já encontrou a mãe à porta, com baldes e vassouras, as mãos ainda cheias de massa, empurrando a água que começava a entrar pela sala, enquanto xingava o descaso das autoridades com a limpeza das ruas.
Alexandre tirou os sapatos, arregaçou as calças, caminhou cautelosamente em direção ao bueiro e dele afastou, com o auxílio de um pedaço de pau que achou boiando, toda aquela massa de detritos. Livre dos obstáculos, o bueiro desempenhou bravamente sua função, enquanto a mãe, a sorrir, acenava ao filho com um gesto de aprovação. Após um reconfortante banho, enquanto ainda enxugava os cabelos, ele não pôde deixar de se lembrar das palavras de seu professor de Ciências. Que pena que ele não tivesse sido capaz de aplicá-las na primeira situação prática que se apresentara! Seus papeizinhos de balas haviam colaborado, definitivamente, para o entupimento do bueiro e ele acabou por sorrir, na sua ingenuidade de menino, pensando no último dos papéis, correndo, qual um barquinho desgovernado no meio da tormenta, rumo àquele redemoinho que, a partir de sua chegada, não mais iria existir.
20/02/2006.
Alexandre olhava, de seu quarto, a chuva cair. Ele sempre achava fascinante observar a água batendo de encontro à janela e formando pingos que desciam velozmente, rumo à parte mais baixa da vidraça. Na rua, imensas poças se espalhavam por toda parte. À medida que a chuva aumentava, a correnteza ia invadindo e tomando tudo. O bueiro mal dava conta da massa de água misturada com papéis, garrafas de refrigerantes, copos plásticos, latas de cerveja, mas ia se agüentando. Meia hora depois, sobre ele, só restava um pequeníssimo buraco para manter a rua livre de uma enchente.
O menino começou a lembrar-se das palavras de seu professor de Ciências, que, ao final de cada aula, sempre fazia projeções de imagens mostrando os efeitos danosos da ação do homem sobre a natureza e sobretudo sobre a qualidade de vida da cidade. Só agora percebia como eram sensatas aquelas palavras. Suas reflexões foram interrompidas pela entrada intempestiva do irmão mais novo. Aos berros, o caçula, aí por volta de seis anos, irrompeu no quarto e se atirou em seus braços. Após acariciá-lo e secar-lhe as lágrimas, Alexandre quis saber o que estava acontecendo. Entre soluços, o pequeno apresentou seu grave problema: queria brincar na chuva e a mãe, depois de tentar explicar-lhe, repetidamente, que aquilo era perigoso, simplesmente passara a chave na porta de saída. Alberto ― esse o nome do caçula ― inconformado, correu para o irmão, na esperança de tê-lo como aliado.
Alexandre acalmou o irmão e lhe repetiu quase as mesmas palavras da mãe. O pequeno ensaiou um novo choro, mas foi levado, pela mão, até a janela para assistir à dança de pingos escorrendo pela vidraça. A princípio, Alberto olhou com alguma curiosidade e até esboçou um sorriso, mas logo se cansou e correu de volta ao andar de baixo, já saudoso da mãe e esquecido da proibição. Alexandre voltou a sua vidraça. A chuva dera uma trégua e a água começava a baixar, vagarosamente, sorvida pela goela daquele pequenino buraco que restara na superfície do bueiro.
De súbito, a voz de sua mãe ecoou pelo quarto, chamando-o. Desceu rapidamente as escadas e foi encontrá-la na copa, os dedos tomados por uma crosta de batatas amassadas misturada a um pó branco. Ela estava preparando um empadão para o almoço e precisava de mais farinha de trigo. O filho teria de ir buscá-la, o mais rápido que pudesse, no mercadinho do bairro.
Alexandre jogou por cima da cabeça uma velha capa e saiu à rua, não sem antes dar uma espiada no bueiro, que continuava a recolher a água da chuva através daquele buraco heróico. Pelo caminho ia pensando que tudo aquilo poderia mudar se as pessoas “tomassem consciência de suas responsabilidades de cidadãos e não transformassem a via pública num verdadeiro chiqueiro.” ― como costumava dizer o professor Chegando ao mercado, apanhou logo o pacote de farinha de trigo e já estava indo de volta quando um menino abordou-o pedindo que comprasse um pacote de balas “pra ajudar a família”. Condoído, Alexandre remexeu os bolsos e deu-lhe algumas moedas, recebendo em troca a guloseima. A chuva voltara a apertar e ele, à medida que se aproximava de casa ia saboreando as balas deixando cair, distraidamente, os papéis impermeáveis no chão. Nem reparou que os mesmos, levados pela correnteza, corriam rumo ao bueiro, tornando ainda menor o espaço para o escoamento das águas. Quando atirou o último papel, já estava bem diante de casa. Entrou rapidamente, entregou a farinha à mãe e voltou para o quarto a fim de apreciar seus pingos na vidraça. Quando olhou para a rua, não mais conseguiu enxergar o bueiro. Uma enorme poça já cobria a calçada e avançava em direção à porta de sua casa. Desceu correndo e já encontrou a mãe à porta, com baldes e vassouras, as mãos ainda cheias de massa, empurrando a água que começava a entrar pela sala, enquanto xingava o descaso das autoridades com a limpeza das ruas.
Alexandre tirou os sapatos, arregaçou as calças, caminhou cautelosamente em direção ao bueiro e dele afastou, com o auxílio de um pedaço de pau que achou boiando, toda aquela massa de detritos. Livre dos obstáculos, o bueiro desempenhou bravamente sua função, enquanto a mãe, a sorrir, acenava ao filho com um gesto de aprovação. Após um reconfortante banho, enquanto ainda enxugava os cabelos, ele não pôde deixar de se lembrar das palavras de seu professor de Ciências. Que pena que ele não tivesse sido capaz de aplicá-las na primeira situação prática que se apresentara! Seus papeizinhos de balas haviam colaborado, definitivamente, para o entupimento do bueiro e ele acabou por sorrir, na sua ingenuidade de menino, pensando no último dos papéis, correndo, qual um barquinho desgovernado no meio da tormenta, rumo àquele redemoinho que, a partir de sua chegada, não mais iria existir.
20/02/2006.

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