Nome: blogdoruy
Local: Rio de Janeiro, Sudeste

13.9.08

Hoje é o dia


Taí um dia em que nada deu certo. Sei que a frase não é nada original e espero ser perdoado pela falta de imaginação mas, tendo em vista tantas turbulências e frustrações de uma só vez, só posso mesmo dizê-la e até repeti-la.
Quebrei o relógio de cabeceira, ao tentar desligá-lo, às seis da manhã. O tempo estava chuvoso, a cama quente e macia. O maldito tocou bem no meu ouvido, como que dizendo:
“Levante-se, preguiçoso. Siga meu exemplo, que fiquei a madrugada toda acordado.”
Não suportei ironia e varejei-lhe a mão, espatifando-o contra a parede. Resultado: cortei dois dedos (será que ele me mordeu?) e ainda vou ter de comprar um outro despertador, sei lá se mais cínico do que o falecido e que, certamente, vai continuar a me “dizer” coisas semelhantes.
No banheiro, não pude deixar de me lembrar de um velho sucesso de Elza Soares (ainda anda por aí), cantando uma paródia do memorável In the mood (que saudades da orquestra dançante do Glenn Miller):
Edmundo nunca sabe bem o que faz
Ele é um sujeito distraído demais
Dizem que uma noite quando em casa chegou
Antes de deitar ele fez tal confusão
Que o chinelo no seu travesseiro botou
E se ajeitando foi dormir no chão...
E por aí seguia a paródia. O Edmundo era mesmo um desastrado e chegava a encher a banheira com uma colher e ir para a cozinha fritar o roupão.
Eu, que não pretendia fazer as mesmas tolices do Edmundo, agi com a maior das cautelas: pus pasta de dentes na escova, fiz a barba (sem me cortar), mas quando fui dar descarga no vaso ― ó horror! ―a água subiu, rapidamente, trazendo consigo o que nela boiava. Transbordou tudo e o banheiro ficou uma lástima. O jeito foi fechar o registro e fazer a limpeza. Com isso, meu tempo encurtou. Corri para a cozinha, sem roupão, para não fritá-lo e preparei um café gostoso. Enchi meia xícara e quando derramei o leite por cima, verifiquei que havia se transformado em vistosa coalhada.
Lá se foi o meu café, pia abaixo. Vagarosamente, contei até cinqüenta e abri um sorriso, dizendo para mim mesmo.
“Melhor esquecer esse tal de café da manhã. Fica para amanhã. Viram como ainda consigo fazer graça na desgraça?”
O resto da coalhada, joguei direto no lixo. Dava até para comer, mas eu queria vingança!
Ao sair vi que o ponteiro da gasolina estava no vermelho e que desse jeito somente andaria poucos quilômetros. Lá fui eu abastecer e enquanto o frentista foi passar o meu cartão de crédito, aproveitei para relaxar, olhando o movimento em volta do posto.
― Doutor, seu cartão foi recusado.
Era o frentista. Durante a semana, com a proximidade do Natal, andei usando o cartão para a compra de presentes. Resumindo: o limite havia ido para o espaço. Por sorte, ainda tinha algum dinheiro vivo que deu para pagar a despesa, mas fiquei reduzido a zero.
― Quer que veja a frente, doutor? Óleo? Água? Filtros? Lavo os vidros, doutor?
― Fica para outra vez. Estou atrasado.
Um chato, o frentista. E o maldito insistia em me chamar de doutor. Segui para o trabalho com o humor acendendo luzinhas vermelhas a toda hora.
Na repartição, ninguém falou comigo. Passavam sem responder aos meus cumprimentos. O chefe me chamou uma infinidade de vezes. Assuntos corriqueiros. Parece que fazia para me irritar ainda mais. Pediu-me que redigisse uma carta comercial, alegando que a secretária tinha ido entregar papéis importantes à diretoria. Fiquei quase uma hora tentando e as idéias, quando me vinham acabavam por ser mal expressas em frases pessimamente construídas.
Terminado o expediente, tomei meu carro e voltei para casa mas, ao entrar na garagem, desatento como estava, bati no muro e arranhei um dos paralamas. Berrei, xinguei a mim mesmo, dei socos na cabeça. Subindo de elevador só conseguia pensar que, a qualquer momento ele iria parar, mas isso não aconteceu. Ao saltar, encontrei o corredor totalmente às escuras e fui tateando até a porta. Procurei nos bolsos e não encontrei as chaves. Era demais. Sentei-me no chão, enterrei a cabeça nas mãos e já ia começar a chorar, quando as luzes se acenderam e um imenso coro surgiu à minha frente, puxado pelo chefe da repartição:

“Hoje é o dia
Do teu aniversário,
Parabéns, parabéns
Desejamos que vás
Ao centenário
Os amigos sinceros que tens...”
O bando sabia o quanto eu detestava o “Parabéns pra você” e tinha tirado do baú uma outra canção, própria para arrasar com a paciência de aniversariante. Logo atrás do chefe, uma das funcionárias, alíás muito minha amiga, segurava um cabo de vassoura, com as chaves do meu apartamento na ponta, à guisa de estandarte. Numa de minhas idas para atender ao chefe, os malandros haviam “furtado” o chaveiro do bolso de meu paletó.
Com tantos dissabores, eu havia esquecido do meu aniversário, mas eles, não.
Que delícia ter amigos. Principalmente nos dias em que nada dá certo.

09/12/2005.