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Nome: blogdoruy
Local: Rio de Janeiro, Sudeste

13.9.08

O Cristo sumiu!


Mês de dezembro, noite quente, lua cheia brotando do mar. Quanto mais sobe, mais exibe sua beleza ocre. Lembra-me a infância, quando eu passava horas me imaginando a saborear aquele belo queijo gigante.
Nas praias da zona sul, todos param para admirar o espetáculo. Ele se repete durante o ano inteiro, mas seu fascínio sempre se exerce sobre os cariocas e os que aqui vivem e têm o privilégio de assisti-lo.
Livre totalmente da prisão do mar, a lua se apresenta, soberana.
De repente, uma criança, para quem, obviamente, o espetáculo nada significa, puxa a mão da mulher que está a seu lado e grita, excitada:
― Mamãe, mamãe, o Cristo sumiu!
A mãe, a princípio não dá a menor atenção ao menino, pois, além da beleza da lua, ainda divide o tempo em conversa com as amigas.
― Mãe, cadê o Cristo, mãe?
A mulher finalmente resolve olhar em direção ao Corcovado e dá um grito angustiado.
― Vejam, vejam, o Tibúrcio tem razão! O Cristo sumiu mesmo! Vamos chamar a polícia, o Corpo de Bombeiros, ligar pra Brasília. Alguma coisa tem de ser feita! O Cristo é nosso! Que história é essa de tirar o Cristo sem nossa consulta? Teriam de ter feito um plebiscito para saber se as pessoas queriam ou não que a imagem do Redentor fosse deletada do Corcovado.
As amigas se entreolham, depois de verificar a ausência da estátua no alto do morro e abanam as cabeças, incrédulas pelo acontecido e pasmas com o discurso da mãe do Tibúrcio.
― Calma, Ernestina! ― pondera a Diocleides. Não é hora de discursos de protesto ou reivindicações. Pode estar certa que, a esta altura, a polícia já foi avisada, porque todos que costumam ver a imagem do Cristo à noite, já devem ter posto a boca no mundo.
― Você tem razão, Di. É preciso manter a calma, mas eu quero o meu Cristo de volta ― resmunga a Ernestina.
A essa altura, as linhas telefônicas estão totalmente congestionadas, nas tentativas de contatos com as “autoridades competentes” e a maioria das pessoas, sem coragem de ir para casa, procura saber se alguém, por ali, teria alguma noção do que está acontecendo.
Ernestina toma uma decisão rápida pelo grupo:
― Vamos à casa da Antonieta. É aqui pertinho e é quase certo que a TV deve estar dando notícias.
E sai, arrastando o Tibúrcio pela mão.
Passam pela portaria como foguetes, sem cumprimentar o seu Praxedes, porteiro do prédio da Antonieta e velho conhecido delas e vão tocar a campainha do apartamento da amiga, ali mesmo no térreo.
― Abre logo, Totonha. Mulher mais lerda. Parece o bicho-preguiça ― rosna a Ernestina enquanto aperta freneticamente o botão da campainha.
Antonieta abre a porta e fica olhando o grupo, sem entender o porquê de tanto barulho.
A Ernestina não perdoa:
― Criatura de Deus! Estava dormindo? Aposto que não sabe que o Cristo sumiu!
― Sumiu mesmo? ― pergunta a Totonha, abrindo enorme bocejo. Pois sumiu tarde! Vocês sabem que nós, do Clube Ecológico “Tudo como nos velhos tempos” não gostamos nem um pouco daquela estátua enorme e engomada poluindo o visual do nosso Corcovado. Que Nosso Senhor não me castigue, mas eu prefiro o morro ao natural, todo cheio de árvores e passarinhos, sem ninguém explorando os turistas para dar uma chegadinha lá em cima.
― Poxa, Totonha! O caso é muito sério. Deve estar dando na TV. Deixa a gente entrar para saber das notícias, suplica a Diocleides.
― Mafalda, vá buscar umas cervejas e umas pizzas, porque a noite promete ser longa! ― ordena outra vez a Ernestina.
― Mãe, mãe. Quero ir pra casa. Não quero mais saber do Cristo. Tô com fome e sono. Não gosto de pizza. Quero Coca.
― Fique quieto, menino, grita a Ernestina enquanto se despenca pelo corredor atrás da Mafalda.
― Mafalda, traga Coca-Cola pro Tibúrcio! Fique quieto, menino. Depois de comer vai dormir na cama da tia Totonha ― arremata a Tina.
― A cama dela é muito dura, mãe. Se o pai estivesse aqui ele ia me levar pro Mc Donald’s e depois íamos para casa dormir. Não gosto mais de você!
Ernestina deixa o filho no quarto da Totonha e volta para a sala, onde todas as amigas estão em frente à TV.
― Tina, nenhum canal está dando notícia sobre o sumiço do Cristo. Será que nós não tivemos uma alucinação coletiva? Que tal se fôssemos todas para nossas casas? Estamos cansadas e tensas. Com certeza amanhã o Cristo aparece no seu lugar e pronto ¾ argumentou Gumercinda, a mais velha e equilibrada das amigas.
― Agora você levantou uma questão muito séria, Guma. Será que estamos ficando doidas, quero dizer doidos, porque o meu Tiba também viu que o Cristo tinha sumido. Todos fomos testemunhas: o morro estava vazio, sem Cristo algum ― rebateu a Tina.
― Então vamos lá tirar a prova final, propôs a Guma, com apoio, inclusive da Totonha.
Saem apressadas, esquecendo do pobre Tibúrcio que, cansado de esperar pela Coca-Cola, acaba dormindo. Abrem a porta do prédio, dão de cara com o magnífico e gigantesco queijo ocre, correm para a praia, viram-se, ao mesmo tempo, para o morro do Corcovado, e vêem, em seu costumeiro lugar de muitos e muitos anos, a estátua do Cristo Redentor.
Ficam as amigas sem saber o que pensar, quando ouvem a vozinha do Tibúrcio, correndo na frente da Mafalda:
― Mãe, mãe, me leva pra casa? O Cristo já voltou pro lugar dele. Vamos embora?
― É o seguinte, minhas caras ― foi logo dizendo a Mafalda. Deu no jornal Nacional, agora mesmo. Imaginem que a Globo está fazendo tomada de cena para a próxima novela das oito, lá no Corcovado e, para obter um determinado efeito, inventou de criar um fundo negro que acabou por encobrir, por alguns minutos a imagem. Concluindo: o nosso amado Cristo jamais deixou de estar no lugar que sempre foi dele.
Apesar dos lamentos da Antonieta, Ernestina, com ar vitorioso encerra o caso:
― Não falei, não falei? Eu sabia que nem eu, nem o meu Tiba e nem vocês estávamos doidos. Doidos são aqueles caras da Globo, que vivem pra perturbar o juízo dos outros. Vamos, filhinho, vamos passar no Mc Donald’s que aquela pizza que a tia Mafalda levou já deve estar fria e horrorosa de comer. Tchau, gente.
E lá se vão, mãe e filho, abraçados e felizes, apontando, ora para a lua, ora para a imagem do Cristo, até sumir na escuridão da rua, rumo ao Mc Donald's.

Hoje é o dia


Taí um dia em que nada deu certo. Sei que a frase não é nada original e espero ser perdoado pela falta de imaginação mas, tendo em vista tantas turbulências e frustrações de uma só vez, só posso mesmo dizê-la e até repeti-la.
Quebrei o relógio de cabeceira, ao tentar desligá-lo, às seis da manhã. O tempo estava chuvoso, a cama quente e macia. O maldito tocou bem no meu ouvido, como que dizendo:
“Levante-se, preguiçoso. Siga meu exemplo, que fiquei a madrugada toda acordado.”
Não suportei ironia e varejei-lhe a mão, espatifando-o contra a parede. Resultado: cortei dois dedos (será que ele me mordeu?) e ainda vou ter de comprar um outro despertador, sei lá se mais cínico do que o falecido e que, certamente, vai continuar a me “dizer” coisas semelhantes.
No banheiro, não pude deixar de me lembrar de um velho sucesso de Elza Soares (ainda anda por aí), cantando uma paródia do memorável In the mood (que saudades da orquestra dançante do Glenn Miller):
Edmundo nunca sabe bem o que faz
Ele é um sujeito distraído demais
Dizem que uma noite quando em casa chegou
Antes de deitar ele fez tal confusão
Que o chinelo no seu travesseiro botou
E se ajeitando foi dormir no chão...
E por aí seguia a paródia. O Edmundo era mesmo um desastrado e chegava a encher a banheira com uma colher e ir para a cozinha fritar o roupão.
Eu, que não pretendia fazer as mesmas tolices do Edmundo, agi com a maior das cautelas: pus pasta de dentes na escova, fiz a barba (sem me cortar), mas quando fui dar descarga no vaso ― ó horror! ―a água subiu, rapidamente, trazendo consigo o que nela boiava. Transbordou tudo e o banheiro ficou uma lástima. O jeito foi fechar o registro e fazer a limpeza. Com isso, meu tempo encurtou. Corri para a cozinha, sem roupão, para não fritá-lo e preparei um café gostoso. Enchi meia xícara e quando derramei o leite por cima, verifiquei que havia se transformado em vistosa coalhada.
Lá se foi o meu café, pia abaixo. Vagarosamente, contei até cinqüenta e abri um sorriso, dizendo para mim mesmo.
“Melhor esquecer esse tal de café da manhã. Fica para amanhã. Viram como ainda consigo fazer graça na desgraça?”
O resto da coalhada, joguei direto no lixo. Dava até para comer, mas eu queria vingança!
Ao sair vi que o ponteiro da gasolina estava no vermelho e que desse jeito somente andaria poucos quilômetros. Lá fui eu abastecer e enquanto o frentista foi passar o meu cartão de crédito, aproveitei para relaxar, olhando o movimento em volta do posto.
― Doutor, seu cartão foi recusado.
Era o frentista. Durante a semana, com a proximidade do Natal, andei usando o cartão para a compra de presentes. Resumindo: o limite havia ido para o espaço. Por sorte, ainda tinha algum dinheiro vivo que deu para pagar a despesa, mas fiquei reduzido a zero.
― Quer que veja a frente, doutor? Óleo? Água? Filtros? Lavo os vidros, doutor?
― Fica para outra vez. Estou atrasado.
Um chato, o frentista. E o maldito insistia em me chamar de doutor. Segui para o trabalho com o humor acendendo luzinhas vermelhas a toda hora.
Na repartição, ninguém falou comigo. Passavam sem responder aos meus cumprimentos. O chefe me chamou uma infinidade de vezes. Assuntos corriqueiros. Parece que fazia para me irritar ainda mais. Pediu-me que redigisse uma carta comercial, alegando que a secretária tinha ido entregar papéis importantes à diretoria. Fiquei quase uma hora tentando e as idéias, quando me vinham acabavam por ser mal expressas em frases pessimamente construídas.
Terminado o expediente, tomei meu carro e voltei para casa mas, ao entrar na garagem, desatento como estava, bati no muro e arranhei um dos paralamas. Berrei, xinguei a mim mesmo, dei socos na cabeça. Subindo de elevador só conseguia pensar que, a qualquer momento ele iria parar, mas isso não aconteceu. Ao saltar, encontrei o corredor totalmente às escuras e fui tateando até a porta. Procurei nos bolsos e não encontrei as chaves. Era demais. Sentei-me no chão, enterrei a cabeça nas mãos e já ia começar a chorar, quando as luzes se acenderam e um imenso coro surgiu à minha frente, puxado pelo chefe da repartição:

“Hoje é o dia
Do teu aniversário,
Parabéns, parabéns
Desejamos que vás
Ao centenário
Os amigos sinceros que tens...”
O bando sabia o quanto eu detestava o “Parabéns pra você” e tinha tirado do baú uma outra canção, própria para arrasar com a paciência de aniversariante. Logo atrás do chefe, uma das funcionárias, alíás muito minha amiga, segurava um cabo de vassoura, com as chaves do meu apartamento na ponta, à guisa de estandarte. Numa de minhas idas para atender ao chefe, os malandros haviam “furtado” o chaveiro do bolso de meu paletó.
Com tantos dissabores, eu havia esquecido do meu aniversário, mas eles, não.
Que delícia ter amigos. Principalmente nos dias em que nada dá certo.

09/12/2005.

Taioba

Passo pela feira do meu bairro e leio na placa do verdureiro: “Taioba”. Repentinamente sinto-me transportado na “máquina do tempo”, rumo ao passado saudoso. Lá estou eu, oito anos de idade, ao lado de meu pai, no ponto do bonde, de cujo número e destino já não me recordo, mas que, com certeza, passava no subúrbio onde nasci.
Sempre gostei das viagens de bonde. O pai me permitia sentar na ponta do banco, desde que eu prometesse ficar bem quietinho, além de enlaçar, na minha, a sua poderosa e protetora mão. E lá ia eu olhando as casas que passavam e reparando melhor nos jardins, quando o bonde parava para recolher novos passageiros ou até mesmo para a descida de um único. O motorneiro (assim era chamado o homem que acionava os controles do bonde) somente dava partida quando o condutor (encarregado da cobrança das passagens) acionasse duas vezes a campainha destinada a sinalizar,também, quando um passageiro queria descer. Nessas paradas eu ria dos cachorros que latiam para o bonde; dos papelotes que as mocinhas usavam para tornar os cabelos encaracolados; das trouxas de roupas que balançavam nas cabeças das lavadeiras, em fantásticos prodígios de equilíbrio, tudo pronto para a entrega aos fregueses; da algazarra que meninos e meninas da escola pública faziam ao tomar o bonde.
Nesse momento senti a mão de meu pai apertar ligeiramente a minha, num costumeiro sinal de “atenção”. Olhei para ele e vi o indicador da mão que não me segurava apontando para um veículo que eu ainda não conhecia e que acabara de parar à nossa frente. Não era verde, como o que sempre tomávamos, mas marrom e não tinha o carro reboque usado pelo “nosso” para recolher mais gente por viagem.
― Vamos pegar esse aí hoje, pai ? ― perguntei curioso.
― Não, filho. Esse aí é o Taioba.
― Taioba? O que é isso? É porque ele tem cor diferente?
― O Taioba é um bonde criado para uso das pessoas que precisam transportar cargas ou objetos que não caberiam nos bondes comuns.
― Quer dizer que o Taioba pode levar as trouxas daquelas senhoras que lavam roupa pra fora?
― Exatamente, filho. Levam, também, cargas maiores, como verduras e legumes de pequenos produtores; levam material de construção como tijolos e sacos de cimento; levam ferramentas de trabalhadores, tudo isso desde que em quantidades e pesos razoáveis. Eles não têm bancos para as pessoas que carregam as mercadorias sentarem Vão todos de pé, no meio, ao lado dos volumes.
― A gente pode viajar no Taioba, pai? Lá num cantinho, sem atrapalhar?
― Não, filho. O Taioba é exclusivo para transporte de cargas e das pessoas donas delas. A passagem é até mais barata do que a do nosso bonde verde, porque a maioria das pessoas que faz uso dele é gente pobre.
― Agora entendi, pai. Foi uma boa idéia inventar o Taioba.
A voz do verdureiro me fez diluir a imagem do passado e me trouxe de volta à feira do meu bairro. Percebi que várias pessoas me olhavam enquanto eu continuava sorrindo, sem tirar os olhos da placa: Taioba.
― Vai taioba hoje, freguês? Está fresquinha. Pode levar sem susto.
― Vou querer toda a taioba que o senhor tem aí.
O feirante encheu várias sacas plásticas com as taiobas e, enquanto pagava, perguntei em voz alta para ser ouvido por todos que estavam em volta da barraca:
― A que horas passa o Taioba?
Ficou todo mundo sem entender nada.


Dezembro, /2004

A gota de papel

Alexandre olhava, de seu quarto, a chuva cair. Ele sempre achava fascinante observar a água batendo de encontro à janela e formando pingos que desciam velozmente, rumo à parte mais baixa da vidraça. Na rua, imensas poças se espalhavam por toda parte. À medida que a chuva aumentava, a correnteza ia invadindo e tomando tudo. O bueiro mal dava conta da massa de água misturada com papéis, garrafas de refrigerantes, copos plásticos, latas de cerveja, mas ia se agüentando. Meia hora depois, sobre ele, só restava um pequeníssimo buraco para manter a rua livre de uma enchente.
O menino começou a lembrar-se das palavras de seu professor de Ciências, que, ao final de cada aula, sempre fazia projeções de imagens mostrando os efeitos danosos da ação do homem sobre a natureza e sobretudo sobre a qualidade de vida da cidade. Só agora percebia como eram sensatas aquelas palavras. Suas reflexões foram interrompidas pela entrada intempestiva do irmão mais novo. Aos berros, o caçula, aí por volta de seis anos, irrompeu no quarto e se atirou em seus braços. Após acariciá-lo e secar-lhe as lágrimas, Alexandre quis saber o que estava acontecendo. Entre soluços, o pequeno apresentou seu grave problema: queria brincar na chuva e a mãe, depois de tentar explicar-lhe, repetidamente, que aquilo era perigoso, simplesmente passara a chave na porta de saída. Alberto ― esse o nome do caçula ― inconformado, correu para o irmão, na esperança de tê-lo como aliado.
Alexandre acalmou o irmão e lhe repetiu quase as mesmas palavras da mãe. O pequeno ensaiou um novo choro, mas foi levado, pela mão, até a janela para assistir à dança de pingos escorrendo pela vidraça. A princípio, Alberto olhou com alguma curiosidade e até esboçou um sorriso, mas logo se cansou e correu de volta ao andar de baixo, já saudoso da mãe e esquecido da proibição. Alexandre voltou a sua vidraça. A chuva dera uma trégua e a água começava a baixar, vagarosamente, sorvida pela goela daquele pequenino buraco que restara na superfície do bueiro.
De súbito, a voz de sua mãe ecoou pelo quarto, chamando-o. Desceu rapidamente as escadas e foi encontrá-la na copa, os dedos tomados por uma crosta de batatas amassadas misturada a um pó branco. Ela estava preparando um empadão para o almoço e precisava de mais farinha de trigo. O filho teria de ir buscá-la, o mais rápido que pudesse, no mercadinho do bairro.
Alexandre jogou por cima da cabeça uma velha capa e saiu à rua, não sem antes dar uma espiada no bueiro, que continuava a recolher a água da chuva através daquele buraco heróico. Pelo caminho ia pensando que tudo aquilo poderia mudar se as pessoas “tomassem consciência de suas responsabilidades de cidadãos e não transformassem a via pública num verdadeiro chiqueiro.” ― como costumava dizer o professor Chegando ao mercado, apanhou logo o pacote de farinha de trigo e já estava indo de volta quando um menino abordou-o pedindo que comprasse um pacote de balas “pra ajudar a família”. Condoído, Alexandre remexeu os bolsos e deu-lhe algumas moedas, recebendo em troca a guloseima. A chuva voltara a apertar e ele, à medida que se aproximava de casa ia saboreando as balas deixando cair, distraidamente, os papéis impermeáveis no chão. Nem reparou que os mesmos, levados pela correnteza, corriam rumo ao bueiro, tornando ainda menor o espaço para o escoamento das águas. Quando atirou o último papel, já estava bem diante de casa. Entrou rapidamente, entregou a farinha à mãe e voltou para o quarto a fim de apreciar seus pingos na vidraça. Quando olhou para a rua, não mais conseguiu enxergar o bueiro. Uma enorme poça já cobria a calçada e avançava em direção à porta de sua casa. Desceu correndo e já encontrou a mãe à porta, com baldes e vassouras, as mãos ainda cheias de massa, empurrando a água que começava a entrar pela sala, enquanto xingava o descaso das autoridades com a limpeza das ruas.
Alexandre tirou os sapatos, arregaçou as calças, caminhou cautelosamente em direção ao bueiro e dele afastou, com o auxílio de um pedaço de pau que achou boiando, toda aquela massa de detritos. Livre dos obstáculos, o bueiro desempenhou bravamente sua função, enquanto a mãe, a sorrir, acenava ao filho com um gesto de aprovação. Após um reconfortante banho, enquanto ainda enxugava os cabelos, ele não pôde deixar de se lembrar das palavras de seu professor de Ciências. Que pena que ele não tivesse sido capaz de aplicá-las na primeira situação prática que se apresentara! Seus papeizinhos de balas haviam colaborado, definitivamente, para o entupimento do bueiro e ele acabou por sorrir, na sua ingenuidade de menino, pensando no último dos papéis, correndo, qual um barquinho desgovernado no meio da tormenta, rumo àquele redemoinho que, a partir de sua chegada, não mais iria existir.

20/02/2006.