Cantos do Rio
D. Cremilda não é exatamente o que se costumava chamar, em tempos idos, de “carioca da gema”, mas conhece tanto desta cidade e é tão observadora de seus hábitos, história e monumentos que, se a Câmara dos Vereadores soubesse de sua existência, certamente lhe concederia, tranqüilamente, o título de Cidadã Carioca.
Nascida em Caicó, Rio Grande do Norte, migrou para o Rio de Janeiro e cedo veio trabalhar como empregada doméstica em casa de meus pais. Cresci sendo testemunha de sua bondade e do apurado senso na interpretação de fatos do cotidiano.
Infelizmente não lhe foi possível freqüentar regularmente a escola, já que naquele tempo, educação para empregada doméstica "não era problema de patrão”, como costumava dizer minha avó, criada na convicção de que, às mulheres de famílias de posse, bastavam os rudimentos da leitura e da escrita, ao lado das prendas do lar e que para as pobres, o único caminho era o trabalho doméstico.
Quando D. Cremilda chegou a nossa casa, tinha eu aí pelos sete anos e ela, por volta de vinte e cinco, razão pela qual habituei-me a chamá-la de “Dona”. Minha geração fora educada assim: senhor e senhora para os que tinham mais idade.
Minha mãe encarregava a empregada de fazer todas as compras e atividades fora de casa, reservando para si a “organização interna do lar”, como gostava de dizer. Dessa forma, D. Cremilda saía, todos os dias, para desempenhar suas obrigações e eu geralmente a acompanhava, com a função de verificar se estava cumprindo o que lhe tinha sido determinado. Uma espécie de olheiro da mãe.
Durou pouco essa “função”, já que, na volta eu simplesmente confirmava que D. Cremilda fazia tudo de maneira correta e ainda lhe sobrava algum tempo para comentar comigo o que víamos pelo caminho. Quando minha mãe adquiriu total confiança nela quis me dispensar de acompanhá-la, mas eu gostava tanto das nossas conversas que pedi para continuarmos saindo juntos. Minha mãe consentiu e, já no momento em que tomávamos o bonde, na minha querida Tijuca, começavam as lições da Dona Cremilda:
― Olhe, meu filho, nós vamos entregar esta roupa lavada e passada, na rua Riachuelo, que ficou famosa porque aí morou um moço que escrevia bonito. Um tal de Machado de Assis. A rua tinha outro nome. Pera aí, deixa eu pensar... Ah, era Matacavalos.
― Como é que a senhora sabe tudo isso, D. Cremilda? A senhora não foi pra escola...
― E eu não tenho ouvidos e olhos, meu filho? A televisão lá da sua casa vive ligada e quando não tenho serviço pra fazer, fico prestando atenção. Quem não tem escola tem de inventar pra aprender. Opa, menino, lembrei agora que na volta temos de passar na Praça Quinze para comprar peixe barato e fazer aquela caldeirada que você tanto gosta.
O bonde seguiu viagem passando pelo Rio Comprido, rumo ao centro da cidade. Mais adiante, D. Cremilda puxou-me, de leve, a manga da camisa, apontou para uma casa velha, porém conservada, quase na esquina da Avenida Presidente Vargas e exclamou, cheia de respeito:
― Ali era a casa do Marechal Deodoro da Fonseca. Dali ele saiu para proclamar a República. Tinham uns homens debatendo na televisão e um deles dizia que o Marechal apareceu montado a cavalo, de pijama e não queria proclamar coisa nenhuma, mas isso eu não cheguei a entender direito. Parece que a República foi cheia de fofocas.
Eu gostava do jeito simples com que a D. Cremilda abordava os assuntos importantes. Ela não tirava conclusões complicadas e isso desafiava minha imaginação. Eu via Deodoro de pijama listrado, com as bainhas das calças quase no meio das canelas, tendo ao lado um espadão que passava da barriga de seu cavalo.
O bonde entrou no Campo de Santana e seguiu pela rua Riachuelo. Saltamos e a roupa foi entregue. Caminhávamos rumo ao Passeio Público, quando D. Cremilda me deu ligeiro toque no braço, indicando um enorme monumento de concreto, todo pintado de branco:
― São os Arcos da Lapa, meu filho. Lá por cima, onde está passando um bondinho agora, corria um cano grande que trazia água do morro de Santa Teresa para a cidade. Se não tivessem feito isso, não sei como o pessoal daqui de baixo ia beber água e tomar banho. Os homens quando querem, sabem fazer coisas pra ajudar outros homens.
No Passeio Público, enquanto esperávamos o bonde para a Praça Quinze, D. Cremilda ainda teve tempo para mais uma liçãozinha:
― Tá vendo esse parque, meu filho? Aí dentro tem uma porção de estátuas de pessoas importantes que é para gente se lembrar delas depois. A gente tem o costume de esquecer depressa das pessoas. É só passar um tempinho que ninguém mais se lembra delas. Qualquer dia desses vamos ver essa gente.
Voltamos e, enquanto o bonde deslizava pelo centro da cidade eu ficava imaginando o Marechal Deodoro, montado a cavalo, de pijama curto, no alto dos Arcos da Lapa, conversando com uma porção de bustos de personagens ilustres de nossa história, sei lá sobre o quê.
Saltamos junto à estação das Barcas e D. Cremilda foi logo dizendo:
― Deixe eu lhe mostrar a Ilha Fiscal, onde foi dado o último baile da corte, antes da Proclamação da República. Olhe só aquele castelinho. Uma beleza. D. Pedro II estava lá. Agora vamos pegar o peixe que está ficando tarde, meu filho.
Na volta, já sonolento, a imaginação foi a mil: D. Pedro II vestido numa farda de Marechal, acenava do alto dos Arcos da Lapa, enquanto as estátuas dançavam com a princesa D. Maria Amélia, na Ilha Fiscal, tendo o Marechal Deodoro a reger a orquestra com sua espada.
Quanto aprendi, do meu Rio, com a D. Cremilda. Pena que ela partiu, não se sabe pra onde.
D. Cremilda não é exatamente o que se costumava chamar, em tempos idos, de “carioca da gema”, mas conhece tanto desta cidade e é tão observadora de seus hábitos, história e monumentos que, se a Câmara dos Vereadores soubesse de sua existência, certamente lhe concederia, tranqüilamente, o título de Cidadã Carioca.
Nascida em Caicó, Rio Grande do Norte, migrou para o Rio de Janeiro e cedo veio trabalhar como empregada doméstica em casa de meus pais. Cresci sendo testemunha de sua bondade e do apurado senso na interpretação de fatos do cotidiano.
Infelizmente não lhe foi possível freqüentar regularmente a escola, já que naquele tempo, educação para empregada doméstica "não era problema de patrão”, como costumava dizer minha avó, criada na convicção de que, às mulheres de famílias de posse, bastavam os rudimentos da leitura e da escrita, ao lado das prendas do lar e que para as pobres, o único caminho era o trabalho doméstico.
Quando D. Cremilda chegou a nossa casa, tinha eu aí pelos sete anos e ela, por volta de vinte e cinco, razão pela qual habituei-me a chamá-la de “Dona”. Minha geração fora educada assim: senhor e senhora para os que tinham mais idade.
Minha mãe encarregava a empregada de fazer todas as compras e atividades fora de casa, reservando para si a “organização interna do lar”, como gostava de dizer. Dessa forma, D. Cremilda saía, todos os dias, para desempenhar suas obrigações e eu geralmente a acompanhava, com a função de verificar se estava cumprindo o que lhe tinha sido determinado. Uma espécie de olheiro da mãe.
Durou pouco essa “função”, já que, na volta eu simplesmente confirmava que D. Cremilda fazia tudo de maneira correta e ainda lhe sobrava algum tempo para comentar comigo o que víamos pelo caminho. Quando minha mãe adquiriu total confiança nela quis me dispensar de acompanhá-la, mas eu gostava tanto das nossas conversas que pedi para continuarmos saindo juntos. Minha mãe consentiu e, já no momento em que tomávamos o bonde, na minha querida Tijuca, começavam as lições da Dona Cremilda:
― Olhe, meu filho, nós vamos entregar esta roupa lavada e passada, na rua Riachuelo, que ficou famosa porque aí morou um moço que escrevia bonito. Um tal de Machado de Assis. A rua tinha outro nome. Pera aí, deixa eu pensar... Ah, era Matacavalos.
― Como é que a senhora sabe tudo isso, D. Cremilda? A senhora não foi pra escola...
― E eu não tenho ouvidos e olhos, meu filho? A televisão lá da sua casa vive ligada e quando não tenho serviço pra fazer, fico prestando atenção. Quem não tem escola tem de inventar pra aprender. Opa, menino, lembrei agora que na volta temos de passar na Praça Quinze para comprar peixe barato e fazer aquela caldeirada que você tanto gosta.
O bonde seguiu viagem passando pelo Rio Comprido, rumo ao centro da cidade. Mais adiante, D. Cremilda puxou-me, de leve, a manga da camisa, apontou para uma casa velha, porém conservada, quase na esquina da Avenida Presidente Vargas e exclamou, cheia de respeito:
― Ali era a casa do Marechal Deodoro da Fonseca. Dali ele saiu para proclamar a República. Tinham uns homens debatendo na televisão e um deles dizia que o Marechal apareceu montado a cavalo, de pijama e não queria proclamar coisa nenhuma, mas isso eu não cheguei a entender direito. Parece que a República foi cheia de fofocas.
Eu gostava do jeito simples com que a D. Cremilda abordava os assuntos importantes. Ela não tirava conclusões complicadas e isso desafiava minha imaginação. Eu via Deodoro de pijama listrado, com as bainhas das calças quase no meio das canelas, tendo ao lado um espadão que passava da barriga de seu cavalo.
O bonde entrou no Campo de Santana e seguiu pela rua Riachuelo. Saltamos e a roupa foi entregue. Caminhávamos rumo ao Passeio Público, quando D. Cremilda me deu ligeiro toque no braço, indicando um enorme monumento de concreto, todo pintado de branco:
― São os Arcos da Lapa, meu filho. Lá por cima, onde está passando um bondinho agora, corria um cano grande que trazia água do morro de Santa Teresa para a cidade. Se não tivessem feito isso, não sei como o pessoal daqui de baixo ia beber água e tomar banho. Os homens quando querem, sabem fazer coisas pra ajudar outros homens.
No Passeio Público, enquanto esperávamos o bonde para a Praça Quinze, D. Cremilda ainda teve tempo para mais uma liçãozinha:
― Tá vendo esse parque, meu filho? Aí dentro tem uma porção de estátuas de pessoas importantes que é para gente se lembrar delas depois. A gente tem o costume de esquecer depressa das pessoas. É só passar um tempinho que ninguém mais se lembra delas. Qualquer dia desses vamos ver essa gente.
Voltamos e, enquanto o bonde deslizava pelo centro da cidade eu ficava imaginando o Marechal Deodoro, montado a cavalo, de pijama curto, no alto dos Arcos da Lapa, conversando com uma porção de bustos de personagens ilustres de nossa história, sei lá sobre o quê.
Saltamos junto à estação das Barcas e D. Cremilda foi logo dizendo:
― Deixe eu lhe mostrar a Ilha Fiscal, onde foi dado o último baile da corte, antes da Proclamação da República. Olhe só aquele castelinho. Uma beleza. D. Pedro II estava lá. Agora vamos pegar o peixe que está ficando tarde, meu filho.
Na volta, já sonolento, a imaginação foi a mil: D. Pedro II vestido numa farda de Marechal, acenava do alto dos Arcos da Lapa, enquanto as estátuas dançavam com a princesa D. Maria Amélia, na Ilha Fiscal, tendo o Marechal Deodoro a reger a orquestra com sua espada.
Quanto aprendi, do meu Rio, com a D. Cremilda. Pena que ela partiu, não se sabe pra onde.

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