No meu tempo de criança
Nasci com a guerra. Quando tinha lá pelos meus cinco anos, só ouvia os adultos falarem em “invasores para cá”, “aliados para lá”, “rendição para acolá”. Ficava sem entender nada. Rádio, só havia na casa de minha avó materna e D. Capitulina Augusta não deixava criança alguma se aproximar daquele colosso que, para funcionar razoavelmente, precisava de mão caridosa segurando o fio da antena que lhe saía da parte traseira. O som era péssimo. As vozes dos locutores que transmitiam as notícias, ora chegavam fortes e estridentes, ora fracas e abafadas. Meu pai sempre reclamava porque a metade do que era dito ele não entendia.
As aflições familiares ficavam por conta da ida de um primo de minha mãe para a frente da luta, na Itália. Floriano ― esse era o seu nome ― ao voltar, trouxe marcas: ouvia pouco de um lado e piscava um dos olhos repetidamente. . Sua família morava longe, lá pelas bandas de Turiaçu, onde nunca pus os pés. Jamais voltamos a vê-lo.
Em 1945, já com seis anos, além do fim da guerra, o assunto dominante era a deposição do presidente Vargas. As discussões eram acaloradas. Os mais velhos o defendiam, enquanto os jovens só o tratavam por ditador. No meio daquele tumulto de gestos e gritos, eu , depois de tomar a bênção de pais, tios e padrinhos me isolava num canto brincando com meus carros de madeira e soldadinhos de chumbo, vivendo no meu doce mundinho de fantasia, sem preocupações nem noção de direitos e deveres, longe da realidade dos adultos, tão cheia de regras e preconceitos.
Quando o relógio batia oito horas da noite, eu era chamado por minha mãe, cumprimentava os mais velhos com beijos nas mãos e nas faces e me encaminhava para o meu quarto onde, antes de ir para a cama, ajoelhava e rezava uma Ave-Maria e um Padre-Nosso, num tempo em que, nesta última oração ainda se dizia: “Perdoai as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores”
E dormia, com a certeza de que, no dia seguinte, se fosse domingo, meu pai iria me levar ao Morro-dos-Padres, de onde se avistava parte do bairro em que morávamos. Lá, eu andava de balanço e aprendi a amar a natureza, pois caminhávamos no meio de um pequeno bosque ali existente, onde eu ia sendo instruído sobre plantas, pequenos animais e insetos que encontrávamos pelo caminho. Meus melhores anos de vida...
Muitas noites frias, antes de dormir, quando não havia debates, eu me punha debaixo dos lençóis e ali ficava, bem quieto, ouvindo, atentamente, as histórias que minha irmã lia para mim. Era um momento de fantásticas viagens pelas profundezas da imaginação, numa mistura de São Jorge com tia Nastácia e Visconde de Sabugosa, temperada com as maldades da Cuca. Só tinha dificuldade em entender como a mula-sem-cabeça podia pôr fogo pelas ventas.. Mas que punha, eu tinha absoluta certeza.
É, o mundo mudou muito. Fico tentando imaginar como deve ser o cotidiano de uma criança de agora, com 5 a 6 anos de idade. Não consigo, mas posso afirmar, com certeza, que melhor do que o da minha infância, não é não!
Novembro/2007
Nasci com a guerra. Quando tinha lá pelos meus cinco anos, só ouvia os adultos falarem em “invasores para cá”, “aliados para lá”, “rendição para acolá”. Ficava sem entender nada. Rádio, só havia na casa de minha avó materna e D. Capitulina Augusta não deixava criança alguma se aproximar daquele colosso que, para funcionar razoavelmente, precisava de mão caridosa segurando o fio da antena que lhe saía da parte traseira. O som era péssimo. As vozes dos locutores que transmitiam as notícias, ora chegavam fortes e estridentes, ora fracas e abafadas. Meu pai sempre reclamava porque a metade do que era dito ele não entendia.
As aflições familiares ficavam por conta da ida de um primo de minha mãe para a frente da luta, na Itália. Floriano ― esse era o seu nome ― ao voltar, trouxe marcas: ouvia pouco de um lado e piscava um dos olhos repetidamente. . Sua família morava longe, lá pelas bandas de Turiaçu, onde nunca pus os pés. Jamais voltamos a vê-lo.
Em 1945, já com seis anos, além do fim da guerra, o assunto dominante era a deposição do presidente Vargas. As discussões eram acaloradas. Os mais velhos o defendiam, enquanto os jovens só o tratavam por ditador. No meio daquele tumulto de gestos e gritos, eu , depois de tomar a bênção de pais, tios e padrinhos me isolava num canto brincando com meus carros de madeira e soldadinhos de chumbo, vivendo no meu doce mundinho de fantasia, sem preocupações nem noção de direitos e deveres, longe da realidade dos adultos, tão cheia de regras e preconceitos.
Quando o relógio batia oito horas da noite, eu era chamado por minha mãe, cumprimentava os mais velhos com beijos nas mãos e nas faces e me encaminhava para o meu quarto onde, antes de ir para a cama, ajoelhava e rezava uma Ave-Maria e um Padre-Nosso, num tempo em que, nesta última oração ainda se dizia: “Perdoai as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores”
E dormia, com a certeza de que, no dia seguinte, se fosse domingo, meu pai iria me levar ao Morro-dos-Padres, de onde se avistava parte do bairro em que morávamos. Lá, eu andava de balanço e aprendi a amar a natureza, pois caminhávamos no meio de um pequeno bosque ali existente, onde eu ia sendo instruído sobre plantas, pequenos animais e insetos que encontrávamos pelo caminho. Meus melhores anos de vida...
Muitas noites frias, antes de dormir, quando não havia debates, eu me punha debaixo dos lençóis e ali ficava, bem quieto, ouvindo, atentamente, as histórias que minha irmã lia para mim. Era um momento de fantásticas viagens pelas profundezas da imaginação, numa mistura de São Jorge com tia Nastácia e Visconde de Sabugosa, temperada com as maldades da Cuca. Só tinha dificuldade em entender como a mula-sem-cabeça podia pôr fogo pelas ventas.. Mas que punha, eu tinha absoluta certeza.
É, o mundo mudou muito. Fico tentando imaginar como deve ser o cotidiano de uma criança de agora, com 5 a 6 anos de idade. Não consigo, mas posso afirmar, com certeza, que melhor do que o da minha infância, não é não!
Novembro/2007

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