blogdoruy

Nome: blogdoruy
Local: Rio de Janeiro, Sudeste

19.2.09

No meu tempo de criança

Nasci com a guerra. Quando tinha lá pelos meus cinco anos, só ouvia os adultos falarem em “invasores para cá”, “aliados para lá”, “rendição para acolá”. Ficava sem entender nada. Rádio, só havia na casa de minha avó materna e D. Capitulina Augusta não deixava criança alguma se aproximar daquele colosso que, para funcionar razoavelmente, precisava de mão caridosa segurando o fio da antena que lhe saía da parte traseira. O som era péssimo. As vozes dos locutores que transmitiam as notícias, ora chegavam fortes e estridentes, ora fracas e abafadas. Meu pai sempre reclamava porque a metade do que era dito ele não entendia.
As aflições familiares ficavam por conta da ida de um primo de minha mãe para a frente da luta, na Itália. Floriano ― esse era o seu nome ― ao voltar, trouxe marcas: ouvia pouco de um lado e piscava um dos olhos repetidamente. . Sua família morava longe, lá pelas bandas de Turiaçu, onde nunca pus os pés. Jamais voltamos a vê-lo.
Em 1945, já com seis anos, além do fim da guerra, o assunto dominante era a deposição do presidente Vargas. As discussões eram acaloradas. Os mais velhos o defendiam, enquanto os jovens só o tratavam por ditador. No meio daquele tumulto de gestos e gritos, eu , depois de tomar a bênção de pais, tios e padrinhos me isolava num canto brincando com meus carros de madeira e soldadinhos de chumbo, vivendo no meu doce mundinho de fantasia, sem preocupações nem noção de direitos e deveres, longe da realidade dos adultos, tão cheia de regras e preconceitos.
Quando o relógio batia oito horas da noite, eu era chamado por minha mãe, cumprimentava os mais velhos com beijos nas mãos e nas faces e me encaminhava para o meu quarto onde, antes de ir para a cama, ajoelhava e rezava uma Ave-Maria e um Padre-Nosso, num tempo em que, nesta última oração ainda se dizia: “Perdoai as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores”
E dormia, com a certeza de que, no dia seguinte, se fosse domingo, meu pai iria me levar ao Morro-dos-Padres, de onde se avistava parte do bairro em que morávamos. Lá, eu andava de balanço e aprendi a amar a natureza, pois caminhávamos no meio de um pequeno bosque ali existente, onde eu ia sendo instruído sobre plantas, pequenos animais e insetos que encontrávamos pelo caminho. Meus melhores anos de vida...
Muitas noites frias, antes de dormir, quando não havia debates, eu me punha debaixo dos lençóis e ali ficava, bem quieto, ouvindo, atentamente, as histórias que minha irmã lia para mim. Era um momento de fantásticas viagens pelas profundezas da imaginação, numa mistura de São Jorge com tia Nastácia e Visconde de Sabugosa, temperada com as maldades da Cuca. Só tinha dificuldade em entender como a mula-sem-cabeça podia pôr fogo pelas ventas.. Mas que punha, eu tinha absoluta certeza.
É, o mundo mudou muito. Fico tentando imaginar como deve ser o cotidiano de uma criança de agora, com 5 a 6 anos de idade. Não consigo, mas posso afirmar, com certeza, que melhor do que o da minha infância, não é não!

Novembro/2007

Cantos do Rio

D. Cremilda não é exatamente o que se costumava chamar, em tempos idos, de “carioca da gema”, mas conhece tanto desta cidade e é tão observadora de seus hábitos, história e monumentos que, se a Câmara dos Vereadores soubesse de sua existência, certamente lhe concederia, tranqüilamente, o título de Cidadã Carioca.
Nascida em Caicó, Rio Grande do Norte, migrou para o Rio de Janeiro e cedo veio trabalhar como empregada doméstica em casa de meus pais. Cresci sendo testemunha de sua bondade e do apurado senso na interpretação de fatos do cotidiano.
Infelizmente não lhe foi possível freqüentar regularmente a escola, já que naquele tempo, educação para empregada doméstica "não era problema de patrão”, como costumava dizer minha avó, criada na convicção de que, às mulheres de famílias de posse, bastavam os rudimentos da leitura e da escrita, ao lado das prendas do lar e que para as pobres, o único caminho era o trabalho doméstico.
Quando D. Cremilda chegou a nossa casa, tinha eu aí pelos sete anos e ela, por volta de vinte e cinco, razão pela qual habituei-me a chamá-la de “Dona”. Minha geração fora educada assim: senhor e senhora para os que tinham mais idade.
Minha mãe encarregava a empregada de fazer todas as compras e atividades fora de casa, reservando para si a “organização interna do lar”, como gostava de dizer. Dessa forma, D. Cremilda saía, todos os dias, para desempenhar suas obrigações e eu geralmente a acompanhava, com a função de verificar se estava cumprindo o que lhe tinha sido determinado. Uma espécie de olheiro da mãe.
Durou pouco essa “função”, já que, na volta eu simplesmente confirmava que D. Cremilda fazia tudo de maneira correta e ainda lhe sobrava algum tempo para comentar comigo o que víamos pelo caminho. Quando minha mãe adquiriu total confiança nela quis me dispensar de acompanhá-la, mas eu gostava tanto das nossas conversas que pedi para continuarmos saindo juntos. Minha mãe consentiu e, já no momento em que tomávamos o bonde, na minha querida Tijuca, começavam as lições da Dona Cremilda:
― Olhe, meu filho, nós vamos entregar esta roupa lavada e passada, na rua Riachuelo, que ficou famosa porque aí morou um moço que escrevia bonito. Um tal de Machado de Assis. A rua tinha outro nome. Pera aí, deixa eu pensar... Ah, era Matacavalos.
― Como é que a senhora sabe tudo isso, D. Cremilda? A senhora não foi pra escola...
― E eu não tenho ouvidos e olhos, meu filho? A televisão lá da sua casa vive ligada e quando não tenho serviço pra fazer, fico prestando atenção. Quem não tem escola tem de inventar pra aprender. Opa, menino, lembrei agora que na volta temos de passar na Praça Quinze para comprar peixe barato e fazer aquela caldeirada que você tanto gosta.
O bonde seguiu viagem passando pelo Rio Comprido, rumo ao centro da cidade. Mais adiante, D. Cremilda puxou-me, de leve, a manga da camisa, apontou para uma casa velha, porém conservada, quase na esquina da Avenida Presidente Vargas e exclamou, cheia de respeito:
― Ali era a casa do Marechal Deodoro da Fonseca. Dali ele saiu para proclamar a República. Tinham uns homens debatendo na televisão e um deles dizia que o Marechal apareceu montado a cavalo, de pijama e não queria proclamar coisa nenhuma, mas isso eu não cheguei a entender direito. Parece que a República foi cheia de fofocas.
Eu gostava do jeito simples com que a D. Cremilda abordava os assuntos importantes. Ela não tirava conclusões complicadas e isso desafiava minha imaginação. Eu via Deodoro de pijama listrado, com as bainhas das calças quase no meio das canelas, tendo ao lado um espadão que passava da barriga de seu cavalo.
O bonde entrou no Campo de Santana e seguiu pela rua Riachuelo. Saltamos e a roupa foi entregue. Caminhávamos rumo ao Passeio Público, quando D. Cremilda me deu ligeiro toque no braço, indicando um enorme monumento de concreto, todo pintado de branco:
― São os Arcos da Lapa, meu filho. Lá por cima, onde está passando um bondinho agora, corria um cano grande que trazia água do morro de Santa Teresa para a cidade. Se não tivessem feito isso, não sei como o pessoal daqui de baixo ia beber água e tomar banho. Os homens quando querem, sabem fazer coisas pra ajudar outros homens.
No Passeio Público, enquanto esperávamos o bonde para a Praça Quinze, D. Cremilda ainda teve tempo para mais uma liçãozinha:
― Tá vendo esse parque, meu filho? Aí dentro tem uma porção de estátuas de pessoas importantes que é para gente se lembrar delas depois. A gente tem o costume de esquecer depressa das pessoas. É só passar um tempinho que ninguém mais se lembra delas. Qualquer dia desses vamos ver essa gente.
Voltamos e, enquanto o bonde deslizava pelo centro da cidade eu ficava imaginando o Marechal Deodoro, montado a cavalo, de pijama curto, no alto dos Arcos da Lapa, conversando com uma porção de bustos de personagens ilustres de nossa história, sei lá sobre o quê.
Saltamos junto à estação das Barcas e D. Cremilda foi logo dizendo:
― Deixe eu lhe mostrar a Ilha Fiscal, onde foi dado o último baile da corte, antes da Proclamação da República. Olhe só aquele castelinho. Uma beleza. D. Pedro II estava lá. Agora vamos pegar o peixe que está ficando tarde, meu filho.
Na volta, já sonolento, a imaginação foi a mil: D. Pedro II vestido numa farda de Marechal, acenava do alto dos Arcos da Lapa, enquanto as estátuas dançavam com a princesa D. Maria Amélia, na Ilha Fiscal, tendo o Marechal Deodoro a reger a orquestra com sua espada.
Quanto aprendi, do meu Rio, com a D. Cremilda. Pena que ela partiu, não se sabe pra onde.

Pequena história de amor


Era uma vez...

...um urso velho e rabugento chamado Rabouthy
Chegado o inverno, como fazia todo ano, resmungou, para não perder o hábito, e enrodilhou-se no fundo de uma caverna, preparando-se para o longo período de inércia.
De repente, em meio ao sono inquieto de Rabouthy surge um pequenino mas fulgurante raio de sol que vai pousar, doce e terno, sobre o seu poderoso peito, aquecendo-lhe, rapidamente, o coração. Ele curte aquele delicioso calor com toda a intensidade de que é capaz e, no momento seguinte está lá fora, correndo pelos campos floridos, em plena Primavera, à procura de mel, sempre acompanhado de seu pequenino e fulgurante raio de sol,. Toda vez que Rabouthy tenta tocá-lo, ele escapa ligeiro. E mais continua a aquecer o coração do urso.
Quando Rabouthy dá por si, caminha em círculos e só pára ao bater com a cabeça na dura e fria neve que fecha a saída, impedindo-lhe a passagem.
Custa muito a entender o que acontece, pois é lenta a percepção de ursos velhos e rabugentos. Resmunga, desta vez tristemente, enrosca-se no fundo da caverna e volta a dormir.
Ao acordar, na Primavera, Rabouthy corre pelos campos floridos a procura de mel. Do lado esquerdo do peito, na cor amarela, ele traz a marca dourada de um pequenino e fulgurante raio de sol, que o acompanhará pelo resto da vida.

Conto de Natal III


— Mais um Natal... Este ano espero não ter encrencas lá pelas bandas do Brasil. Terra tão bonita e tão cheia de gente encrenqueira. Agora, antes de abrir a minha boca vou, vou ver bem onde estou pisando. Há dois anos seguidos que acabo preso e em um deles os presentes acabaram por ser entregues no dia seguinte Desse jeito, meu prestígio vai piorar e olha que já não anda nada bom. Cada dia menos crianças acreditam em mim. Ainda vou acabar tendo de contratar um marqueteiro para fazer minha imagem retornar ao que era, há décadas atrás e eu não tenho dinheiro para pagar os caríssimos serviços dessa gente Meu rádio não tem captado as estações do Brasil, de maneira que não sei o que está ocorrendo por aquela terra de Gonçalves Dias, de Vinícius de Moraes, de Ciro Monteiro, de tanta gente boa que conheci quando fazia minhas entregas tranqüilas lá por aquelas bandas onde um dia já cantou e foi cantado, não só o sabiá como a sabiá. O que tem a me dizer disso, Mamãe Noel?
- Está mesmo falando comigo ou pensando alto, seu rabugento? ¾ respondeu Mamãe Noel enquanto dava os últimos retoques na decoração do trenó, ajudada pelos dedicados duendes.
Papai Noel já ia reclamar da falta de atenção da esposa, mas considerou que ela realmente tinha razão: a cada dia que se passava ia ficando cada vez mais mal-humorado e não era justo descontar em cima de quem só lhe dava carinho e perdoava os erros de marido resmungão.
- Estou fazendo as duas coisas e gostaria de ouvir a sua opinião.
- Você precisa ser menos desligado. Está bem que a bondade é seu maior traço de personalidade, mas um pouco de malícia não vai lhe fazer mal. Afinal, as crianças de hoje em dia estão muito mais “adultas” do que aquelas que todos nós conhecemos há algumas décadas atrás, como você mesmo disse. Um pezinho atrás talvez o livre de alguns bons aborrecimentos. É o que eu penso.
Noel ouviu as palavras com atenção e reconheceu que eram sensatas, mas ficou a matutar: como alguém, na sua idade, poderia mudar um traço tão marcante de personalidade, de uma hora para outra. Sorriu para ela, abraçou-a e depositou em sua testa um carinhoso beijo, como se, através desse gesto, estivesse concordando com tudo o que ela lhe sugerira. Conferiu a lista dos presentes, assumiu a boléia do trenó, sacudiu suavemente as rédeas e deu às renas a ordem de partida, rumo ao Brasil, ou mais precisamente, a Brasília — futurística cidade inventada pelos gênios de Lúcio Costa e Oscar Niemayer, sob inspiração do sonhador presidente Juscelino Kubitschek, conforme lera num almanaque que lhe chegara às mãos.
A viagem transcorreu, como sempre, numa velocidade espantosa, pois Papai Noel precisa fazer todas as entregas, no mundo, por volta da meia-noite. Levando em conta as diferenças de fusos horários, a tarefa era, simplesmente, alucinante e, por conta disso, a chegada à capital do Brasil acabou acontecendo no dia vinte e três de dezembro, exatamente quarenta e oito e horas antes da noite de Natal.
Sem perceber o erro de cálculo, Noel estacionou o trenó junto ao lago Paranoá e estranhou que não houvesse quase ninguém nas ruas. Tudo na maior calma.
Das casas, quase todas com as luzes apagadas, nem um único som que se pudesse associar às comemorações habituais de todos os anos. Verificando o relógio, logo se deu conta do engano cometido. Já ia partir para repor tudo nos eixos, quando teve a idéia de conhecer melhor a cidade, tão elogiada em sua arquitetura, em sua enciclopédia.
Estacionou o trenó, debaixo de um arvoredo, recomendou silêncio às renas e saiu, carregando seu saco de presentes, rumo ao centro de Brasília. Caminhando pelas longas avenidas ia matutando:
- Que cidade estranha! Nem um só cruzamento até aqui. Tudo muito árido. Só se anda por estradas. Onde foram parar as ruas?
Quando deu por si, estava na Praça dos Três Poderes, diante do Congresso Nacional. Ficou sem entender tanta ostentação. Afinal, a enciclopédia também dizia que a população do Brasil era formada, em sua maioria, de pessoas pobres e remediadas. Quem será que morava naquele palácio ali perto? Um rei? Certamente não, porque ele se informara que o Brasil era um país de regime presidencialista. Por que tanto luxo só para a família do presidente?
Enquanto caminhava, o dia ia amanhecendo. Que espetáculo magnífico pôde presenciar: a alvorada na capital do Brasil. Contando, poucos acreditam. Tem de estar lá e Noel ficou abismado com o soberbo espetáculo que a natureza lhe oferecia, a ponto de deixar no chão o saco de brinquedos e continuar caminhando em direção ao sol nascente.
Nesse justo momento, uma caravana de jovens, com pinturas no rosto, chegava à praça e começava a limpar as ruas com vassouras e sabão.
- Que bonito! Os jovens de Brasília acordando cedo para fazer uma faxina em frente a esses prédios majestosos, certamente para deixar as ruas mais limpas no dia de Natal. Vou lá ajudá-los ¾ animou-se Noel.
- Ei, gente, tem um cara vestido de Papai Noel querendo entrar no Movimento de Defesa da Democracia Contra a Corrupção. Vamos dar uma vassoura para ele ¾ gritou um dos caras-pintadas, que parecia estar à frente da “equipe de limpeza”.
- Estou chegando agora e gostaria que me explicassem exatamente o que pretendem, meus jovens.
- A gente está protestando contra a corrupção. Queremos um país de gente honesta para nós e nossos filhos. Vamos cantar o Hino Nacional, minha gente!
- Quando eu contar para a Mamãe Noel o que estou vendo ela vai me dar razão porque eu ainda acredito na bondade das pessoas. Essa rapaziada está querendo acabar com a corrupção de algumas pessoas e almeja um futuro melhor para si e seus descendentes. Estou com eles”
Noel teve a cara pintada de verde e amarelo, deu as mãos aos jovens e, embora nunca tivesse ouvido o Hino Nacional Brasileiro, sentiu que as lágrimas lhe rolaram pela face quando uma conhecida cantora de música popular entoou, em ritmo bem lento, a letra do mesmo. Ao final, correram todos em direção à rampa do magnífico palácio, arrastando Noel e tentaram entrar nele. Queriam ser recebidos pelo Presidente, a qualquer custo.
O comandante da guarda do palácio tentou argumentar com o líder do grupo, mas os gritos acabaram por abafar sua voz. A um gesto seu, os guardas cerraram fileiras e sacaram de sabres. A multidão, enfurecida, continuou avançando, até que o Comandante da Guarda deu a ordem de atacar. Os guardas partiram em direção à massa, com tal disposição, que os manifestantes estancaram e começaram a correr de volta. Nesse instante, o chefe do grupo, que estava ao lado do estupefato Papai Noel, abaixou-se, pegou de uma pedra e a atirou em direção aos guardas, ferindo um deles no rosto. Noel, gordo como era, parou de correr e foi logo alcançado pelos guardas que, após derrubá-lo com uma rasteira, torceram seu braço e o levaram preso, enquanto os demais jovens escapavam em louca correria pelos gramados.
E lá se foi, Papai Noel, preso, antes mesmo de começar, oficialmente, sua visita natalina à capital do Brasil., não sem antes conseguir, do comandante da guarda, que alguém lhe fosse buscar o saco de brinquedos que deixara para trás.
Ainda no subsolo do palácio, Noel foi fichado, mas quando era encaminhado à delegacia mais próxima, viu sair da garagem uma limusine preta, cuja chapa indicava ser de algum deputado que certamente fora visitar o Presidente. Ao passar por Papai Noel, o vidro da limusine foi aberto e o ilustre Deputado quis saber o que havia ocorrido.
O chefe da guarda foi incisivo:
- Excelência, esse Papai Noel subversivo liderou um grupo de jovens que tentou invadir o palácio e acabou jogando uma pedra que feriu um de nossos soldados. Está indo preso.
- Excelência! Eu não joguei pedra alguma, só pensei que os rapazes estavam lavando a rua em comemoração ao dia de Natal e me juntei a eles. Como pode ver, eu sou o Papai Noel e, como cheguei antes da hora, estou esperando a noite em que se comemora o nascimento do Cristo para fazer a distribuição dos presentes às crianças de Brasília. Está tudo aqui nesse saco. Será que pode interceder por mim? Dou-lhe a minha palavra de honra que nada de errado fiz. Estão cometendo um terrível engano.
O deputado olhou para Noel, pensou um pouco e, chamando o chefe da guarda de lado, pediu-lhe que lhe concedesse umas duas horas, para que ele investigasse a origem daquele saco que o “Papai Noel” dizia ser de brinquedos. Após a apuração dos fatos ele lhe devolveria o arruaceiro, para que a “justiça fosse feita”.
O chefe concordou e Papai Noel embarcou na limusine, tendo a seus pés o inseparável saco.
- Diga-me, me caro Papai Noel. O quê, exatamente o senhor carrega nesse saco, do qual não se separa nem um só instante? - foi logo perguntando Sua Excelência, em meio a pretensos sorrisos de compreensão e bondade.
- Brinquedos, Excelência. Todos os brinquedos que as crianças de Brasília e do mundo me pediram por carta.
- Esclareça-me uma coisa, nobre colega, - o parlamentar sempre achava que estava, tratando com seus pares ¾ como é que cabem todos os presentes neste saco?
- É um saco mágico, Excelência. Basta que eu introduza a mão nele e pense no presente, que ele logo aparece na minha frente.
- Interessante... Qualquer pedido?
- Qualquer um, Excelência!
- Não importa o tamanho? Imagine se alguma criança pedir um navio?
- Ah, Excelência. As crianças não são como os adultos. Elas são seres que jamais pedem coisas grandiosas.
- Está certo, mas vamos imaginar que um dia alguma lhe peça um avião?
- Nesse caso, ela o ganharia, mas tenho certeza que isso jamais acontecerá.
- Alguma vez uma delas já lhe pediu dinheiro?
- Nunca, Excelência. Criança gosta de objetos que lhes digam ao coração. Dinheiro é papel ou metal. Nada de interessante para elas.
- E se um dia alguma lhe pedir dinheiro? O senhor dará? O senhor seria capaz de tirar quanto dinheiro quisesse deste saco?
- Sem qualquer dúvida, mas tenho total convicção de que jamais tirarei dinheiro do saco pelo motivo que já lhe disse.
- E se esse dinheiro fosse para atender a uma causa humanitária, como por exemplo, a construção de um abrigo para crianças órfãs ou até para uma fundação de amparo à infância desvalida?
Papai Noel calou-se e desviou os olhos do deputado. Realmente ele havia recebido uma cartinha de uma menina, na África, pedindo que olhasse pelas crianças daquele continente, sem qualquer pedido de presente e ele resolvera, excepcionalmente, naquele ano distribuir dinheiro, de casa em casa, para todas as crianças africanas. Entre brinquedos mil, havia uma grande soma em dinheiro vivo. Voltou a encarar o deputado e respondeu, com voz firme:
- Nenhuma criança, por sua livre vontade, seria capaz de fazer tais tipos de pedidos. Elas ainda não têm noção das mazelas do mundo e da má distribuição de rendas, Excelência.
O nobre deputado deu ordem ao motorista para que circulasse pela cidade, enquanto entrevistava Papai Noel. Ele achava que estava lidando com uma espécie de lunático, mas ficou inquieto com aquela história de que seria capaz de tirar do saco quanto dinheiro quisesse. Resolveu levar adiante a entrevista.
- O senhor me dar uma prova de que pode tirar qualquer presente deste saco? Tiraria um deles, agora, para matar a minha curiosidade?
Noel fitou o homem longamente e respondeu:
- Eu só posso tirar daí os presentes que estão na lista dos pedidos feitos pelas crianças em carta. Assim mesmo, só por volta da meia-noite, na própria casa do autor da carta.
- O senhor consegue estar em todas as casas de crianças do mundo, por volta da meia-noite do dia de Natal?
- Certamente, mas não posso lhe dizer o segredo.
- Meu filho escreveu uma carta para Papai Noel, eu li e sei, portanto, o que ele quer. Será que o senhor poderia me dizer o que ele pediu?
- Não posso dizer a ninguém, nem mesmo ao pai da criança.
O deputado deu um sorriso e ficou pensando como aquele velho era ladino. Ele já havia comprado os presentes do filho e queria ver se pegava o velhote na mentira.
- Olhe aqui, Papai Noel. Eu queria muito ajudar o senhor, mas como não facilita as coisas, vou entregá-lo às autoridades. Acho que se não me disser o que realmente tem nesse saco, vai acabar tendo de responder a processo por agressão a um membro da guarda do palácio e até pode até ser convocado para depor numa CPI. Com toda essa história de mala para cá, mala para lá; dinheiro na cueca e em paraísos fiscais, uma CPI do Saco de Papai Noel ia cair como uma luva. Imaginem Papai Noel, vestido a caráter, falando por cerca de doze horas e respondendo a uma enxurrada de perguntas tolas de meus colegas. Seria um novo prato feito para a imprensa, não apenas do Brasil, mas do mundo.
Noel ficou sem ação. Ele não sabia mentir. Não contara toda a verdade e agora estava numa situação delicada. Decidiu que o melhor era contar tudo na presença das autoridades. Elas, certamente justas, iriam entender.
- Agradeço o interesse de Vossa Excelência, mas nada posso dizer-lhe. É melhor retornarmos ao palácio, que sei como me explicar às autoridades.
- Se assim prefere... Motorista, retorne à garagem. Vamos devolver Papai Noel às autoridades, como ele quer.
Assim foi feito.Às vinte horas do dia vinte e três de dezembro do ano de dois mil e cinco, Papai Noel dava entrada na delegacia mais próxima do palácio presidencial, acusado de ter atirado uma pedra num guarda, durante manifestação estudantil de caráter subversivo da ordem pública.
O deputado Sinfrides das Dores, após o diálogo com Papai Noel, ficou pensativo. A situação do governo diante das denúncias de corrupção estava cada dia mais insustentável. Eram CPIs sobre CPIs, todas espremendo testemunhas que acabavam por abrir as bocas, complicando cada vez mais as pessoas e autoridades intimamente ligadas à cúpula governamental. Aquilo tinha de ter um basta, mas, na visão dos poderosos envolvidos, quanto mais CPIs houvesse, com perguntas tolas a fazer, mais distante ia se tornando a tentativa de se apurar a verdade.
- Já imaginaram uma CPI do Papai Noel? - pensou o deputado Sinfrides das Dores. Ia ser um "presente” dos céus para o meu partido. Mais tumulto, mais arguições inócuas e tudo acabaria em pizza, como sempre.
Retornou à Câmara dos Deputados, reuniu-se com a bancada, contou da entrevista com Papai Noel e apresentou seu plano. Foi aplaudido de pé. Se tudo corresse como estava planejado, ninguém - ou quase ninguém - seria punido e o deputado já se via em campanha para o Senado Federal, tendo por lema: “Deus sempre esteve comigo, mesmo quando ninguém mais cria em mim”. Saiu direto dali com um pedido de habeas corpus para Papai Noel, despachado pela justiça imediatamente. Por volta das vinte horas e vinte minutos, justo quando o detetive “Mão-de-pilão” já ia começar o interrogatório, entrou o delegado na sala com o despacho do Excelentíssimo Doutor Juiz e ordenou a imediata soltura de Papai Noel.
- Nem uns cascudos nesse cara, Doutor Delegado? Nem um murro, de leve, no nariz?
- Nada, nada, Mão Solta! Conheço bem essa história de cascudos e murro de leve. O velho ia parar no Hospital de Base de Brasília e eu entrava em cana, pois sou responsável por sua integridade física. Não me meta em confusão! Solte o homem. Papai Noel, por favor, acompanhe-me até minha sala.
- Certamente a justiça percebeu que eu tinha razão, Doutor. Gostaria de agradecer-lhe pela interferência.
- Não tem de me agradecer e como não fizemos sua ficha e o habeas corpus faz referência apenas ao cidadão que atende pela denominação de Papai Noel, o senhor está solto e pode levar esse saco, mas me diga uma coisa: como se faz para abri-lo? Todo mundo por aqui tentou. Usaram de tudo: tesoura, chave de fenda, martelo. Até fogo tentaram pôr no saco, mas ele resistiu a tudo.
- Desculpe, Doutor, mas Papai Noel não pode revelar seus segredos, respondeu o velho, com um leve traço de ironia na voz.
- Ah, já ia me esquecendo: se precisar de abrigo por esta noite, o deputado Sinfrides das Dores deixou este cartão para que o senhor o procure - e o policial entregou a Papai Noel o endereço do político.
Noel pegou o cartão e o pôs no bolso, sem verificar o que estava escrito. Já ia saindo quando o delegado avisou:
- O senhor não pode deixar a cidade, até que a justiça o libere. Passe bem, Papai Noel.
O velho brincalhão estava amuado. Mamãe Noel sempre o alertara para sua extrema ingenuidade diante das pessoas e ele acabara por repetir a dose. O pior é que, por seus princípios de respeito à lei, ele corria o risco de deixar milhões de crianças sem presentes naquele Natal. Caminhou, sem rumo, pelas agora alvoroçadas ruas de Brasília, já agora tomadas por bastante gente que fazia as derradeiras compras natalinas. Ninguém lhe deu atenção. Cruzou, repetidas vezes com uma infinidade de “Papais Noéis”, gordos e magros, brancos, negros, índios e niseis. Ele era apenas mais um vestido daquela forma, em meio à multidão. Sua contrariedade era evidente. Como haviam deturpado sua imagem rubicunda e bonachona! Um desrespeito.
- Eles não perdem por esperar. Quando der meia-noite, quem vai ser o único a distribuir os presentes das crianças? Quem vai chegar de trenó... Céus! Preciso encontrar o meu trenó. Sei que o deixei perto de um grande lago. Melhor perguntar.
Escolhendo a esmo, pegou pelo braço um homem alto, trajando um elegante terno negro de riscas. Ao fitá-lo - que surpresa! - era o deputado Sinfrides, que ao lado de outros homens com trajes semelhantes, também fazia as compras de última hora.
- Colegas, vejam quem está aqui! Papai Noel. Aquele de quem lhes falei. Em carne-e-osso, gordura, barbas brancas e seu indefectível saco - gritou alegre o parlamentar.
Logo se formou uma roda em torno de Papai Noel e todos começaram a fazer perguntas ao mesmo tempo, enquanto lhe davam tapas de confraternização nas costas.
- Procurando por mim, Papai Noel? - conseguiu falar o deputado , depois de impor silêncio, aos gritos, aos nobres colegas. Vamos até minha casa para trocarmos idéias.
E saiu arrastando Papai Noel pela manga de sua camisa vermelha de seda, seguido pelas Excelências. Entraram todos em luxuosas limusines e rumaram para a mansão do deputado Sinfrides, às margens do lago Paranoá. A casa era suntuosa. Jardins em volta, arvoredo plantado, gramados extensos, três piscinas, sendo uma aquecida, duas quadras de tênis, três churrasqueiras, sauna seca e a vapor, sala de ginástica toda aparelhada. O corpo da casa era composto de sete quartos (o deputado dizia que esse número lhe havia sido recomendado por seu guru e ele o usava constantemente), três salões com ar condicionado central e aquecimento, duas salas de jogos, uma para crianças e outra para adultos, onde se via, ao centro, uma roleta de cassino e ao lado, um balcão com globos transparentes, onde se viam esferas numeradas, prontas para o sorteio das cartelas de um bingo. Tudo para divertir os amigos e as famílias, dizia o deputado. Tudo na mais pura inocência.
- Aqui na minha casa, ninguém joga a dinheiro! - dizia o parlamentar batendo com força o punho na mesa de jacarandá da Bahia que decorava seu escritório, construção anexa à casa principal, onde costumava se reunir com a bancada, antes de tomar qualquer decisão em plenário. Os empregados, quando ouviam essa frase tinha de se conter para não rir. Sua casa era conhecida, na própria Câmara dos Deputados, como. O Cassino do Sinfrides”.
Quando todos se acomodaram, inclusive Papai Noel, o anfitrião tomou a palavra e disse:
- Amigos. Prefiro chamá-los assim, pois estamos reunidos em minha casa nessa condição. Além do mais, como Papai Noel não é nosso par no Congresso, vamos formalizar esse encontro, mas tenham todos certeza de que o que aqui for resolvido, certamente será encaminhado a plenário, com amplas possibilidades de vir a ser aprovado.
Noel estava sem palavras. Nunca vira tanto luxo reunido em um só local e olha que já visitara mansões no mundo todo. Enquanto assim pensava, viu parar diante de si uma bandeja de canapés de faisão. Ele nem sabia como agir em tal situação. Sorriu e recusou. Logo o garçom já aparecia com outra, iguaria, igualmente recusada. Noel somente gostava da comidinha caseira feita por Mamãe Noel, lá na Lapônia. Ele e os duendes se empanturravam de pratos altamente gordurosos e sobremesas açucaradas. Nada do que circulava na mansão do deputado se aproximava das delícias feitas pela esposa.
- Como lhes dizia, amigos, encontrei esse bondoso homem que se diz chamar Papai Noel e ele me disse que nesse saco tem dinheiro. Só que ele não quer dizer como abrir e ninguém, mesmo na delegacia, segundo eu soube, foi capaz de fazê-lo. Quem sabe um de vocês é mais convincente do que eu?
- Papai Noel - foi logo dizendo um deputado baixinho, calvo e gordo, aparentando estar passado da terceira idade - eu posso lhe garantir que se o senhor nos disser quanto tem neste saco, nada de ruim lhe acontecerá. Se for uma quantia razoável, aí por volta de um milhão de dólares, o senhor fica com quarenta por cento e divide o resto conosco. Afinal, para quê criança quer dinheiro? Nós, deputados ganhamos muito pouco, o senhor deve saber. O Sinfrides, por exemplo, mal consegue, com o salário de deputado, fazer a manutenção de sua piscina aquecida. Pense com consciência e patriotismo. Seu país merece este sacrifício.
Todos os presentes estavam de boca aberta. Desde quando Papai Noel era brasileiro? Que história era aquela de chamar-lhe os brios de patriota? O senador Jeremildes Simplício tomou a palavra, pela ordem, é claro e procurou minimizar a falta de conhecimento histórico e geográfico do deputado que o antecedera.
- Certamente o deputado Sementrino Cativante, no seu entusiasmo costumeiro, acabou por antecipar um projeto que certamente apresentará, logo após o recesso do Congresso, propondo a cidadania brasileira para o Papai Noel, mas, por enquanto, temos de ser objetivos. Em nome da maioria do Congresso, pretendo pedir que Papai Noel seja convocado a depor na CPI que vou instaurar, depois do recesso, destinada a apurar o que há realmente em seu saco. Vai se chamar CPI do Saco de Papai Noel. Devemos dizer a ele o que isso significa: terá de dizer a verdade ou entrar na justiça para mentir com garantias, mas certamente não escapará de ser bombardeado, por mais de doze horas, com direito a uma hora para uma única refeição, por perguntas das mais diversas naturezas, como, por exemplo, se usa cuecas, de que cor, onde foram compradas, qual a origem do dinheiro que está no saco, se declarou esse dinheiro no Imposto de Renda da Lapônia, se seu trenó está registrado no Detran da Lapônia, se está em dia com o IPVA do veículo, se alimenta adequadamente as renas, se lhes dá descanso semanal, se paga o INSS de Mamãe Noel em dia, se os duendes têm carteiras de trabalho assinadas e assim por diante. Isso sem contar nas infindáveis reconvocações. O que tem a nos dizer, Papai Noel?
Noel não respondeu de imediato. Sua cabeça girava. Estava preocupadíssimo com a segurança de suas renas e do trenó e nem prestara atenção ao discurso de Sua Excelência, mas a julgar pelas expressões fechadas a sua volta, tinha sido coisa séria.
- Amigos - se me permitem tratá-los assim - meu tempo está ficando curto e confesso que pouco entendo do que dizem. Acreditem ou não, eu sou Papai Noel e estou disposto a provar isso agora mesmo, ainda que seja obrigado a quebrar alguma regra da ética que sempre jurei manter por toda a vida. Já é o terceiro ano seguido que sofro contratempos aqui por este país tão lindo, mas recheado de gente complicada. Tenho a declarar que minha missão única é entregar presentes às crianças de todo o mundo na noite de Natal e vou fazê-lo, custe o que custar. Querem que eu retire dinheiro de dentro do saco para que acreditem? Pois vou fazê-lo agora.
Os aplausos foram gerais. Vivas a Papai Noel ecoaram pelo escritório do dono da casa. Um dos deputados tentou, sem sucesso entoar o mote “O povo unido, jamais será vencido”, mas os demais o fuzilaram com os olhos e ele fingiu que nada havia dito. Aproveitando-se da euforia reinante, Noel caminhou em direção à porta, abriu-a e antes de se ir, pôs a mão dentro do saco e de lá tirou um objeto de porte médio, deixando-o a sobre a mesa da sala. Debaixo do mesmo, um bilhete dizendo:
- Excelências. Tanto poderiam fazer pelo povo de seu país e só pensam em si. Peçam a essa cornucópia e ela lhes dará o dinheiro que tanto querem. Nunca mais quero ver nenhum dos senhores diante de mim. Papai Noel.
E saiu. Lá fora, assoviou e logo teve as renas e o trenó de volta. Foi um delírio quando a criançada viu, chegando dos céus, seis magníficas renas puxando um trenó vermelho, num vôo tranqüilo e numa aterrissagem perfeita. Aqueles aplausos mexeram com os sentimentos de Noel.
-Dessa gente é que eu gosto. Vibra com as coisas bonitas da vida. É um país complicado, mas sempre levo dele alguma boa lembrança. Haja vista essa manifestação espontânea, não apenas de crianças, mas de seus pais e da gente simples do povo.
Acionou as rédeas e partiu para sua missão, que naquele ano começaria justamente por Brasília.
Enquanto isso, na mansão do deputado Sinfrides das Dores, os parlamentares se entreolhavam, sem entender como Papai Noel havia conseguido sair sem ser visto pelos poderosos sensores espalhados por todos os cantos, dentro e fora da casa e nem pelos ferozes cães dobermann que se espalhavam, às dezenas, pela propriedade. Nenhum segurança foi capaz de detectá-lo. Ao passarem pela sala do bingo, descobriram a cornucópia e, após ler o bilhete, o deputado Sementrino Cativante se adiantou e pediu que a cornucópia lhes trouxesse dólares, muitos dólares. Para espanto e satisfação geral, foram saindo do bojo da cornucópia, dólares em profusão, sem parar. Em pouco tempo, a sala se transformara em uma gigantesca piscina de dinheiro. Todos tiveram de se afastar e até mudar de aposento. E a cornucópia não parava de soltar as verdinhas.
- Creio que já é hora de parar, minha gente - disse o senador Jeremildes. Pare, cornucópia - berrou Sementrino!
O dinheiro continuava a sair, cada vez com mais intensidade. A cornucópia foi sacudida, jogada ao chão entupida com papel, pano e água. Alguém até se lembrou de derramar uma garrafa inteira de uísque doze anos e nada. Já saía dinheiro pela janela.
. Joguem ela na piscina. Já tem dólar demais. Assim foi feito. As verdinhas nadavam na piscina, enquanto do fundo, a cornucópia jorrava mais.
Nesse instante, do alto, Papai Noel deu uma última olhada para Brasília e, vendo a encrenca em que os gananciosos representantes do povo haviam se metido, fez um gesto com a mão e a cornucópia parou de expelir dinheiro, como por encanto, permanecendo, todavia, no fundo da piscina,. Os dólares, continuaram , aos milhares, espalhados por toda parte.
Um vento forte começou a soprar, elevando no ar centenas de dólares, que se espalharam por toda a cidade. Foi uma festa para os pobres. Só que eles não sabiam como fazer uso do presente. A Polícia Federal encaminhou o caso ao Ministério Público e este à Câmara dos Deputados, pois logo se descobriu de onde vinha todo o dinheiro.
Uma comissão de alto nível convocou centenas de testemunhas, ouviu depoimento de gente humilde que foi encontrada com dólares nas mãos, quebrou-lhes o sigilo bancário, indiciou o deputado Sinfrides das Dores por emissão de dólares falsos, mas o Supremo Tribunal Federal desobrigou-o de prestar depoimento na Polícia Federal e na Câmara dos Deputados.
O parlamentar jurou que de nada sabia e que os dólares certamente tinham sido “plantados” em sua casa para incriminá-lo.
- Manobra típica da oposição rancorosa - disse ele em entrevista à televisão.
Quanto a Papai Noel, ele jura que jamais voltará a pôr os pés no Brasil. Deixará todos os presentes por conta dos Correios que, segundo ele, depois da desmoralizada CPI de mesmo nome, voltou a ser uma das instituições de maior respeito e confiabilidade nesta “Pátria amada, idolatrada, salve, salve!”.

abril 2006

Conto de Natal II

Papai Noel conferiu mais uma vez os brinquedos no fundo do saco com as infindáveis listas que mantinha rigorosamente arrumadas em seu arquivo.
“É, estou ficando velho mesmo. Troquei as lentes dos óculos não faz muito tempo e já não consigo ver objetos de tamanho razoável com a nitidez de antes. Afinal, já tenho tantos anos que até perdi a conta deles e devo durar aí por mais algum tempo, até o dia em que a última criança no mundo deixe de acreditar que eu existo.”
Uma teimosa lágrima tentou equilibrar-se nos olhos do velhinho, mas acabou por cair sobre seu braço, dando-lhe na pele uma sensação morna e agradável. Ele a enxugou, assoou o nariz ruidosamente e voltou ao trabalho.
― Minha primeira visita, neste Natal, será a uma instituição de amparo à velhice, na cidade do Rio de Janeiro. Tenho certeza de que indo a esse lugar vou me sentir mais animado. Quem sabe – até – posso vir a me encostar por lá após a aposentadoria?
Chegada a noite de Natal, lá se foi Papai Noel, guiado pelo faro das renas, rumo à cidade do Rio de Janeiro. Era quase meia-noite e ele teve alguma dificuldade para encontrar o endereço, já que a iluminação lá pela zona norte, local assinalado em sua caderneta de anotações como sendo o do asilo, estava em péssimo estado. Acionou os faróis de seu trenó e desceu próximo a um matagal.
― Lugar interessante. Posso perceber que as pessoas continuam gostando de manter uma certa vegetação próximo de suas casas.
Estava ajeitando o saco e dando instruções para as renas quando um vulto saiu de dentro do mato e encostou um objeto duro e pontudo nas costas dele.
― Quieto aí, cara. Se vira, devagarinho, senão te furo.
Noel voltou-se bem devagar e viu um menino, aparentando uns sete anos, com uma faca apontada para ele.
― Seguinte, carinha ― disse o menino. Tu vai me dá uma grana e eu vou levar tudo o que tivé no saco que tu traz aí, tu tá me entendendo?
-- Estou entendendo, filho, só que eu não tenho dinheiro algum e o que está dentro do saco já tem dono. Quem sabe não tem alguma coisa também pra você? Qual é o seu nome?
― Num tô gostando nem um poco dessas intimidade comigo. Meu tio sempre diz preu num dá papo pra estranho. Tu, com essas roupa vermelha, pra mim é muito bad.
― Você não está me reconhecendo, menino? Qual é o seu nome, afinal?
― Ó, cê tá vestido de Papai Noel. Nessas época o que eu mais vejo nas rua e na televisão é homem vestido de Papai Noel, mas atrás do mato e a essas hora, tá estranho. Meu nome é Messias e eu acho que tu tá a fim de assartá alguém, tirando onda de Papai Noel. Melhor eu levá tu lá pro asilo dos véio e aí tu se exprica pra turma. Andando, meu chapa, senão te furo todo..
E apontou a faca para Noel que, resignadamente, andou na direção indicada pelo menino.
― Você sabe que o seu nome tem um significado muito bonito? ¾ falou Noel enquanto caminhava, tropeçando em latas velhas e garrafas de refrigerantes de plástico.
― Que qui é significado? Tu fala compricado.
― Significado é a mesma coisa de “quer dizer”. O seu nome quer dizer alguma coisa bonita.
― Tá legal, mas vê se anda mais rápido. Tu parece um lesma. Num consegue levantá os pé mais que isso?
― Messias quer dizer “salvador”, aquela pessoa que salva. Jesus Cristo era conhecido por messias porque ele salvava as pessoas. Você já ouviu falar de Jesus Cristo?
― Craro, né velho. Eu vô na igreja nos domingo com minha tia. O meu tio é que não vai não. Ele acha que culto é coisa de “marica”. Foi ele que me deu essa faca. Ele me ensina uma porção de coisa. Já tamo chegando. É naquela casa amarela.
Aproximaram-se da casa indicada pelo menino e puderam ouvir, já à distância, o entoar de vozes do coro religioso. Era no asilo que os moradores do lugar haviam montado uma igreja. Espetado nas costas pela faca de Messias Noel entrou. O coro parou e todos se voltaram para ver a cena inusitada.
Noel pôs o saco de brinquedos no chão e, sorrindo, dirigiu-se ao grupo:
― Boa noite, meus caros. Um feliz Natal a todos.
Como resposta recebeu um pesado silêncio e olhares de reprovação. Um velho magro e também de barbas, o chefe religioso, tomou a palavra:
― O que tá ‘contecendo, Messia? Só farta você dizê que esse aí é o seu tio Anacreto, perparando pra aprontá mais uma das sua brincadeira. Desembucha logo, guri, vamo!
Uma roda se fechou em torno de Messias e Noel e o menino começou a falar:
― Seguinte, pastô. Esse aí não é o tio Anacreto. Eu sei lá onde o tio ta! Esse aí eu achei inda ‘gora, lá perto do lixão, trás aquela moita onde os cavalo come e caga todos os dia.
“Ah, então é por isso que eu estou sentindo um cheiro estranho o tempo todo ¾ pensou Noel enquanto baixava os olhos em direção às suas botas e as via adornadas por grossos debruns de esterco eqüino. E eu pensando que as pessoas plantavam aquele capim para conviver com o verde da natureza...
― Se exprique então o senhor, seu moço, quer dizer, ... Num sei como lhe chamá. O que ocê faz vestido de Papai Noel a uma hora dessa, num lugá que num conhece? Se num consegui si expricá vamo tê que chamá a puliça pra prendê ocê como ladrão.
― Eu? Ladrão? Fiquem sabendo que estudei nas melhores escolas da Lapônia e minha família é toda de gente muito honesta. Não estão vendo que sou Papai Noel? Exijo respeito, senão o que as crianças vão pensar de mim?
― Papai Noel! ¾ exclamou o velho. Essa é boa. Eu acho que em veis de chamá a puliça nós vamo é chamá uma ambulança e mandá ocê pro hospíço. Vai vê eles te bota aqui mesmo no asilo. Aqui só tem uma pessoa, que às vez drome aqui e mais ninguém não.
Todos riram, menos Papai Noel que, a essa altura, estava mais vermelho ainda do que de costume.
― Pois bem, amigos. Querem que lhes prove que sou Papai Noel, não é? Eu aceito o desafio.
Noel já se preparava para provar que ele era Papai Noel quando um tiroteio interrompeu-os.
― Êpa, gente! ― disse o velho magro de barbas. Vamos se mandá que os home deve tá ‘tacando nóis. É o pessoá do otro lado do morro. Vamo simbora.
E correram todos, menos Papai Noel. Primeiro porque seu peso avantajado não lhe permitia correr; depois, porque sua dignidade o impedia de tomar partido de qualquer grupo em disputa sem conhecer os motivos de cada um.
Pouco tempo depois, três soldados da polícia entraram no asilo e vendo aquela estranha figura, gorda e vestida de vermelho, com gorro e todos os paramentos de Papai Noel, simplesmente partiram para cima dele, derrubando-o e após passar-lhe uma gravata, prenderam algemas em seus pulsos.
― Leva esse Papai Noel de araque, soldado ― falou um dos policiais, cheio de divisas no braço da farda. O delegado vai se distrair com ele.
E lá se foi Papai Noel, aos trancos, empurrado pra dentro de um camburão, sem poder articular uma única palavra em sua defesa.
Chegando à delegacia ficou de pé numa salinha estreita, na companhia de homens e mulheres, todos de aparência humilde mas que, embora também estivessem na mesma condição de detidos, não puderam deixar de rir quando viram entrar aquele homem gordo vestido de Papai Noel.
― Que diacho, cara ― disse um deles. Tu não vê que com essa roupa a polícia ia logo te encaná? Tu parece que bebe!
Ouviu-se um berro vindo lá de dentro:
― Vamos parar com gracinhas, senão a coisa vai ficar ainda mais preta para todos.
Fez-se silêncio geral. Agora os detidos só olhavam para a figura meio ridícula de um homem velho e gordo, vestido de vermelho, com a roupa toda retorcida e um barrete enterrado quase até os olhos, resultado dos sacolejões durante o “transporte” no camburão.
Noel começou a pensar no que deveria fazer. Ele tinha poderes para se livrar dessa encrenca, com certa rapidez. Afinal, quem carrega num saco relativamente pequeno todos os presentes pedidos pelas crianças do mundo, não ia se atrapalhar na hora de sair de um pequeno episódio como aquele. A única coisa que o impedia de uma ação imediata era a preocupação com aquela gente que ele vira no asilo, principalmente com o menino Messias.
― Sargento, faça entrar o Papai Noel, ouviu-se a voz do delegado do fundo de sua sala.
― Perfeitamente, Doutor. Vamos lá, Papai Noel.
Desta vez todos riram, inclusive o Doutor Delegado.
Ao entrar, Noel deparou-se com uma figura quase tão gorda quanto a dele, de terno e gravata, que lhe indicou uma cadeira diante de sua mesa.
― Com que então o senhor é o Papai Noel?
― Sim, Doutor Delegado.
― Sendo assim, queira apresentar sua carteira profissional, por gentileza.
― Eu não tenho carteira profissional porque não moro neste país e na Lapônia ninguém precisa de carteira de trabalho, mas qualquer criança é capaz de me identificar.
― Interessante, muito interessante. Sargento, traga aquele menino que ficou na sua sala, aguardando a chegada do Juizado de Menores.
― É pra já, Doutor.
O sargento saiu e retornou quase em seguida, trazendo à sua frente, um menino aparentando uns oito anos.
Quando Noel viu quem era, ficou preocupado.
― Como é mesmo o seu nome, menino? ― perguntou o delegado.
― Messias, Dotô, mas eu não fiz nada de errado. A gente só estava no asilo batendo um papo com...
Naquele instante Messias viu o Papai Noel sentado à frente do delegado e concluiu:
― Era esse o cara que queria que nóis acreditasse que é Papai Noel.
― E você, Messias, acredita que ele seja Papai Noel? ― perguntou o delegado, cheio de ironia na voz.
― Que qué isso, Dotô. O meu tio me ensinou que essa história de Papai Noel é coisa de marica. Tô fora, tô fora.
― Acho que a sua situação se complicou, Papai Noel. Esse menino não acredita no senhor. E agora, como ficamos?
Noel estava desconcertado. Aquele menino estava fora dos padrões culturais que ele sempre julgara imutáveis para todo o sempre. Antes que pudesse esboçar qualquer resposta, ouviu do delegado:
― Não tem carteira de trabalho. Certamente conhece alguém que possa se responsabilizar pelo senhor?
― Já lhe disse que não nasci e nem moro aqui, logo, não conheço ninguém.
― Afinal, onde foi que o senhor nasceu mesmo? Talvez o Consulado do seu país possa se responsabilizar pelo senhor.
― Nasci na Lapônia e não creio que haja no mundo qualquer representação diplomática desse lugar, pois somente eu, Mamãe Noel e os duendes que nos ajudam moramos lá ¾ disse Noel.
― Então, meu caro, só me resta enquadrá-lo nas penas da lei por vadiagem. O senhor ficará detido para verificarmos se tem antecedentes criminais ou qualquer tipo de dívida com a justiça. Sargento, tire as digitais e pode levar o Papai Noel, mas deixe-o numa cela sozinho. Afinal, ele está velho e seria desumano misturá-lo com gente que entra e sai daqui a toda hora. Além do mais algum deles poderia roubar os presentes do saco mágico.
Papai Noel foi trancafiado numa cela e, cansado como estava, logo dormiu.
Teve um sonho em que tudo que lhe estava acontecendo não passava de um mero exercício da sua imaginação e, ao acordar, esboçou um sorriso, que se esmaeceu quando viu à sua frente uma figura engravatada e suarenta .
― Bom dia, Papai Noel. Meu nome é Dermevino e eu sou seu adevogado. O meu amigo delegado me ligou e pediu pra mim vir aqui falar com o senhor.
“Maravilha, pensou Papai Noel. Eu, aqui nessa cela de delegacia e me arranjam um “adevogado”. Vou sair daqui agora, por meus próprios meios.”
― Papai Noel. Conte-me como foi que tudo começou. Não me esconda nada. Pra começar, onde arranjou essa roupa horrorosa? Roubou ou furtou? Como o senhor sabe, furto e roubo não são a mesma coisa no direito.
Noel levantou-se, tranqüilamente, meteu a mão dentro do saco e tirou de lá uma chave de fenda, acessório de uma das bicicletas que ele teria de ter entregue na noite anterior. Abaixou-se, introduziu a chave na fechadura e, com leve torção, abriu o trinco da pesada porta.
― Uau, cara! Você é dos bons! Desse jeito vou ter de cobrar mais caro pelos meus serviços ― admirou-se o causídico.
Noel passou pela porta e fechou-a, imediatamente, deixando preso o doutor adevogado.
― Ei, que história é essa? Sou amigo do delegado. Você, além de ficar sem adevogado, ainda vai levar muito cacete por essa ousadia. ― berrava possesso o Dr. Dermevino.
¾ Fique bem quietinho que eu vou ter uma conversa com o doutor Delegado para esclarecer as coisas e depois ele solta Vossa Excelência, Doutor adevogado.
Papai Noel caminhou em direção à sala do delegado e foi logo empurrando a porta.
O delegado tomou um susto.
― O que está acontecendo? Não sei como conseguiu fugir, Papai Noel, mas vai voltar debaixo de couro ― ameaçou o delegado.
Noel encarou-o com tal decisão que o delegado baixou a voz e disse:
― Onde está o doutor Dermevino? Se você não está armado, por que não fugiu? O que veio fazer na minha sala?
― O doutor Dermevino está descansando lá na cela. Quando terminarmos nossa conversa o senhor faça o favor de mandar soltá-lo. Podemos começar?
― Ou o senhor é louco ou um grande artista. Sente-se e fale ― apontou o delegado para a cadeira em frente à sua, ainda em tom de ordem.
― Obrigado, Doutor. Delegado. Eu tenho certeza que o senhor me considera mais um louco do que um bandido, mas vamos esclarecer as coisas. Para demonstrar que realmente sou o Papai Noel preciso que o senhor, por instantes, se transporte à sua infância, quando certamente acreditava em mim. Pode tentar isso, por alguns segundos? Basta fechar os olhos e se imaginar com seus sete anos de idade. Pode deixar que não é nenhuma armação da minha parte. Afinal, como o senhor mesmo disse, se eu quisesse, já teria fugido há bastante tempo.
Mais descrente do que temeroso, o delegado resolveu fazer o que Noel lhe pedia. Fechou os olhos e procurou voltar aos seus sete anos, numa noite de Natal.
― O que você está vendo, meu menino ― perguntou Noel?
― Uma sala pequena, enfeitada com umas poucas bolas e tendo a um canto uma arvorezinha de Natal, com poucos presentes debaixo dela. Meus pais estão na minha frente, procurando me consolar porque não puderam me dar a bicicleta que eu pedi e me esforcei por ganhar e eu estou muito triste. Eles eram pobres e gastaram o que tinham em pequenos presentes para todos, além da ceia que, realmente, estava muito gostosa. Lembro ainda que dei um beijo em cada um e fui para o meu quarto, onde chorei por não ter conseguido a bicicleta. Dormi e sonhei que Papai Noel vinha conversar comigo e me prometia dar a bicicleta algum dia, só que não podia precisar quando.
De repente, o delegado abriu os olhos e ficou, por instantes, sem entender o que se passava: Papai Noel havia ido embora e, diante dele, reluzia uma bicicleta de criança, novinha em folha, com um bilhete colado nela:
“Eu não me esqueci daquele nosso encontro. Assim que entrei na sua sala, sabia que era a hora de cumprir com a minha palavra. Aí está a sua bicicleta. Dê de presente a alguém que você considere digno dela. Acredita em mim agora?”
O delegado leu o bilhete, guardou-o no bolso do paletó, sentou-se, cruzou calmamente as pernas sobre a mesa, ficou admirando o seu presente de criança e concluiu:
“Velhinho danado. E ainda tem gente que não acredita que ele exista!”
E gritando lá para dentro:
― Sargento, tire o doutor Dermevino da cela e traga esse menino, o Messias, até a minha sala, porque eu tenho uma surpresa para ele.

Pode?

Um clássico ou um tema social? Hitchcock me agrada, mas Woody Allen sempre tem um lugarzinho especial na minha preferência.
Estou nessa dúvida de cinéfilo quando entra na locadora uma jovem sorridente. Cumprimenta o gerente e vai direto a uma grande estante de fitas videocassete, sem tomar conhecimento da minha presença. A loja está em fase de reorganização e as indicações sobre temas, atores e diretores ainda são precárias.
Olho-a, discretamente. Bonita e confiante, ela cantarola, despreocupa, enquanto vira a cabeça, ora à direita, ora à esquerda, tentando ler os títulos.
Depois de algum tempo ela se dirige a um empregado da loja.
― Oi, moço! Eu queria rever um filme que achei muito bom, mas não consigo localizar. Pode me ajudar?
― E qual é o nome do filme, senhorita?
― Do nome eu não me lembro, mas era um com um ator alto e muito bonito.
― É pouco. Preciso de alguma “pista” mais concreta.
― Pista...pista...Ah, já sei: ele era louro e tinha olhos azuis.
― Humm... Alto, bonito, louro, olhos azuis...Vamos adiante. Diga mais alguma coisa, por exemplo, sobre o tema do filme.
― Ah, o filme era... assim... sobre o amor desse lindão por uma mulher também bonita. Agora me lembro bem: eles se beijavam no final do filme.
― Certo, eles se beijavam no final...A mulher era bonita e eles se beijavam no fim. É pouco, é muito pouco
― Pera aí! Ele torcia por um time de beisebol e ela, eu acho não torcia por time nenhum, mas me lembro que ambos tinham dentes perfeitos.
― Senhorita, vamos fazer o seguinte. Anote aqui nesta folha de papel todas essas informações e eu lhe prometo que vou fazer uma pesquisa profunda em nosso acervo. Entre os trinta e cinco mil títulos que temos, certamente vou localizar esse filme. Tão logo consiga, eu entro em contato. Ah, não esqueça de deixar o número de seu telefone..
― Ei, que papo é esse? Venho aqui querendo encontrar um filme, você não me ajuda em nada e ainda quer o meu telefone? Vá se catar, seu bolha!
E a mocinha saiu pisando duro, batendo com força a porta da locadora.
― Que geniozinho danado! ― arriscou o funcionário dirigindo-se a mim.
Nada respondi. Apenas balancei a cabeça afirmativamente.
Escolhi um filme qualquer, paguei e encaminhei-me, rapidamente para a saída, impressionado com a cena surrealista que presenciara. Ia tão concentrado que acabei trombando com a “mocinha do filme”, tão logo abri a porta.da loja. Ainda tentei desviar-me, mas o esbarrão foi inevitável. Gelei, só em pensar no escândalo que ela poderia fazer, com uma ocorrência comum do dia-a-dia, mas eis que a jovem, toda sorridente, enfiou-me um papelzinho no bolso da camisa e arrematou:
― Pra’quele bolha nunca que eu ia dar o meu telefone, mas que tal você me ligar hoje à noite, depois da novela das oito? Meu nome está no cartãozinho.

Agosto/2004

O Cristo sumiu!


Mês de dezembro, noite quente, lua cheia brotando do mar. Quanto mais sobe, mais exibe sua beleza ocre. Lembra-me a infância, quando eu passava horas me imaginando a saborear aquele belo queijo gigante.
Nas praias da zona sul, todos param para admirar o espetáculo. Ele se repete durante o ano inteiro, mas seu fascínio sempre se exerce sobre os cariocas e os que aqui vivem e têm o privilégio de assisti-lo.
Livre totalmente da prisão do mar, a lua se apresenta, soberana.
De repente, uma criança, para quem, obviamente, o espetáculo nada significa, puxa a mão da mulher que está a seu lado e grita, excitada:
― Mamãe, mamãe, o Cristo sumiu!
A mãe, a princípio não dá a menor atenção ao menino, pois, além da beleza da lua, ainda divide o tempo em conversa com as amigas.
― Mãe, cadê o Cristo, mãe?
A mulher finalmente resolve olhar em direção ao Corcovado e dá um grito angustiado.
― Vejam, vejam, o Tibúrcio tem razão! O Cristo sumiu mesmo! Vamos chamar a polícia, o Corpo de Bombeiros, ligar pra Brasília. Alguma coisa tem de ser feita! O Cristo é nosso! Que história é essa de tirar o Cristo sem nossa consulta? Teriam de ter feito um plebiscito para saber se as pessoas queriam ou não que a imagem do Redentor fosse deletada do Corcovado.
As amigas se entreolham, depois de verificar a ausência da estátua no alto do morro e abanam as cabeças, incrédulas pelo acontecido e pasmas com o discurso da mãe do Tibúrcio.
― Calma, Ernestina! ― pondera a Diocleides. Não é hora de discursos de protesto ou reivindicações. Pode estar certa que, a esta altura, a polícia já foi avisada, porque todos que costumam ver a imagem do Cristo à noite, já devem ter posto a boca no mundo.
― Você tem razão, Di. É preciso manter a calma, mas eu quero o meu Cristo de volta ― resmunga a Ernestina.
A essa altura, as linhas telefônicas estão totalmente congestionadas, nas tentativas de contatos com as “autoridades competentes” e a maioria das pessoas, sem coragem de ir para casa, procura saber se alguém, por ali, teria alguma noção do que está acontecendo.
Ernestina toma uma decisão rápida pelo grupo:
― Vamos à casa da Antonieta. É aqui pertinho e é quase certo que a TV deve estar dando notícias.
E sai, arrastando o Tibúrcio pela mão.
Passam pela portaria como foguetes, sem cumprimentar o seu Praxedes, porteiro do prédio da Antonieta e velho conhecido delas e vão tocar a campainha do apartamento da amiga, ali mesmo no térreo.
― Abre logo, Totonha. Mulher mais lerda. Parece o bicho-preguiça ― rosna a Ernestina enquanto aperta freneticamente o botão da campainha.
Antonieta abre a porta e fica olhando o grupo, sem entender o porquê de tanto barulho.
A Ernestina não perdoa:
― Criatura de Deus! Estava dormindo? Aposto que não sabe que o Cristo sumiu!
― Sumiu mesmo? ― pergunta a Totonha, abrindo enorme bocejo. Pois sumiu tarde! Vocês sabem que nós, do Clube Ecológico “Tudo como nos velhos tempos” não gostamos nem um pouco daquela estátua enorme e engomada poluindo o visual do nosso Corcovado. Que Nosso Senhor não me castigue, mas eu prefiro o morro ao natural, todo cheio de árvores e passarinhos, sem ninguém explorando os turistas para dar uma chegadinha lá em cima.
― Poxa, Totonha! O caso é muito sério. Deve estar dando na TV. Deixa a gente entrar para saber das notícias, suplica a Diocleides.
― Mafalda, vá buscar umas cervejas e umas pizzas, porque a noite promete ser longa! ― ordena outra vez a Ernestina.
― Mãe, mãe. Quero ir pra casa. Não quero mais saber do Cristo. Tô com fome e sono. Não gosto de pizza. Quero Coca.
― Fique quieto, menino, grita a Ernestina enquanto se despenca pelo corredor atrás da Mafalda.
― Mafalda, traga Coca-Cola pro Tibúrcio! Fique quieto, menino. Depois de comer vai dormir na cama da tia Totonha ― arremata a Tina.
― A cama dela é muito dura, mãe. Se o pai estivesse aqui ele ia me levar pro Mc Donald’s e depois íamos para casa dormir. Não gosto mais de você!
Ernestina deixa o filho no quarto da Totonha e volta para a sala, onde todas as amigas estão em frente à TV.
― Tina, nenhum canal está dando notícia sobre o sumiço do Cristo. Será que nós não tivemos uma alucinação coletiva? Que tal se fôssemos todas para nossas casas? Estamos cansadas e tensas. Com certeza amanhã o Cristo aparece no seu lugar e pronto ¾ argumentou Gumercinda, a mais velha e equilibrada das amigas.
― Agora você levantou uma questão muito séria, Guma. Será que estamos ficando doidas, quero dizer doidos, porque o meu Tiba também viu que o Cristo tinha sumido. Todos fomos testemunhas: o morro estava vazio, sem Cristo algum ― rebateu a Tina.
― Então vamos lá tirar a prova final, propôs a Guma, com apoio, inclusive da Totonha.
Saem apressadas, esquecendo do pobre Tibúrcio que, cansado de esperar pela Coca-Cola, acaba dormindo. Abrem a porta do prédio, dão de cara com o magnífico e gigantesco queijo ocre, correm para a praia, viram-se, ao mesmo tempo, para o morro do Corcovado, e vêem, em seu costumeiro lugar de muitos e muitos anos, a estátua do Cristo Redentor.
Ficam as amigas sem saber o que pensar, quando ouvem a vozinha do Tibúrcio, correndo na frente da Mafalda:
― Mãe, mãe, me leva pra casa? O Cristo já voltou pro lugar dele. Vamos embora?
― É o seguinte, minhas caras ― foi logo dizendo a Mafalda. Deu no jornal Nacional, agora mesmo. Imaginem que a Globo está fazendo tomada de cena para a próxima novela das oito, lá no Corcovado e, para obter um determinado efeito, inventou de criar um fundo negro que acabou por encobrir, por alguns minutos a imagem. Concluindo: o nosso amado Cristo jamais deixou de estar no lugar que sempre foi dele.
Apesar dos lamentos da Antonieta, Ernestina, com ar vitorioso encerra o caso:
― Não falei, não falei? Eu sabia que nem eu, nem o meu Tiba e nem vocês estávamos doidos. Doidos são aqueles caras da Globo, que vivem pra perturbar o juízo dos outros. Vamos, filhinho, vamos passar no Mc Donald’s que aquela pizza que a tia Mafalda levou já deve estar fria e horrorosa de comer. Tchau, gente.
E lá se vão, mãe e filho, abraçados e felizes, apontando, ora para a lua, ora para a imagem do Cristo, até sumir na escuridão da rua, rumo ao Mc Donald's.

A prova

A menina ia, num doce balanço, não a caminho do mar, mas pelo meio da feira. O corpo não era dourado, mas pardo, bem magro, destacando-se nele os ossos salientes e as costelas à mostra, tudo visível e bem marcado pelo vestido curto e grudado à pele pela chuva fria que lhe escorria dos cabelos emplastrados. Os seios de adolescente começando a aparecer, enrijeciam-se ao contato com a água fria e espremiam-se contra o tecido de sua blusa quase transparente.
Enquanto caminhava pela feira a menina ia fazendo um retrospecto de sua vida. Desde pequena atendia por Mári, forma abreviada do nome – Mariangela, assim mesmo, sem acento – que ela não conseguia repetir quando pequena, quer pela extensão, quer pelo detalhe de ser palavra proparoxítona. Nascera de família humilde, na zona rural do município do Rio de Janeiro e crescera em casa muito simples, construída toscamente por seu pai, ajudante de pedreiro, num terreno baldio cujo dono ninguém conhecia e que jamais o reivindicou. Mesmo não tendo ido à escola aprendeu bastante com a vida dura que teve de enfrentar, sem qualquer contato com objetos e produtos que a televisão de sua casa mostrava. Os sonhos limitavam-se à posse de uma roupa um pouco melhor do que aquela que a mãe conseguira com os vizinhos de mais sorte ou o de ter a sua boneca de palha transformada na Barbie dos comerciais que ela já vira em velhos outdoors.
Ajudar a família a sobreviver era rotina para Mári desde muito cedo. Ela vendia salgados que a mãe fazia e tomava conta de vagas de carros, disputando com os meninos maiores a preferência dos motoristas, muitas vezes no braço. Vida dura que lhe rendia alguns trocados, muitos arranhões e manchas roxas pelo corpo. Juntando com o que a mãe conseguia ganhar lavando e passando roupa para a vizinhança, mal dava para sustentar a todos, já que o pai, por ter caído de andaime de obra, ficara inutilizado para o trabalho.
Seus pensamentos foram interrompidos pelo pregão de um vendedor à sua frente:
― Olha o limão! Quem vai querer? Bom pra peixe, bom pro peito, bom pra garganta. Tá na promoção!
Mári desviou-se do ambulante e seguiu olhando as barracas.
― ‘magina chegar em casa com uma redinha de limão no dia de hoje. Sem essa!
Ela trazia uma idéia não bem definida e ainda não sabia como aplicá-la para conseguir o que mais queria naquele momento. Apesar da vida pobre, jamais cometera qualquer espécie de ato indigno porque a mãe a criara dentro de padrões éticos bem rígidos:
― Somos pobres, mas honestos, repetia sempre para a filha.
― Tenho de dar um presente pra minha mãe, hoje! Alguma coisa que ela ainda não tenha recebido antes. No ano retrasado foi uma colher de pau; ano passado, uma bolsinha de moedas que ela quase não usa.
Para conseguir juntar dinheiro e comprar a bolsinha de moedas, Mári tivera de brigar com os meninos do estacionamento. Só que este ano, justo no dia do aniversário da mãe, não ganhara um único real. Os salgados que trouxera ficaram amassados quando o homem arrancou com o carro e a jogou contra o meio-fio, antes que ela pudesse lhe oferecer os bolinhos de carne. Pela cara que fez, o motorista deve ter pensado que era assalto. Naquele dia nada dera certo. Os pontos de estacionamento estavam todos ocupados por meninos bem mais fortes do que ela e, assim, a féria ficara a zero. Só lhe restava procurar naquela feira alguma coisa pra dar de presente à mãe.
“Ficar sem nada é que ela não vai” ― resmungou a menina.
Caminhava preocupada quando bateu os olhos naquela pintura de fruto: uma enorme maçã, vermelha com matizes amarelos. A maior que ela já tinha visto na vida.
“É este o presente que vou dar para minha mãe. Como é linda. Ela vai amar, mas...como pagar, se hoje não faturei nada? ― pensava Mári, à medida que se aproximava da barraca.
A cabeça ia a mil e a decisão tinha de ser tomada rapidamente. Parou a um passo da fruta e num movimento inesperado, tomou-a nas mãos, disparando pela feira.
― Pega, pega ladrão ― gritava o barraqueiro, livrando-se do avental e tentando acompanhar o ritmo de corrida da menina.
Mári correu com todas as forças que tinha até alcançar um pequeno bosque que ladeava a feira. Sentindo-se em segurança ela parou e, enquanto recuperava o fôlego, pôs-se a admirar a maçã.
“Além de grande é pesada. Já vejo a mãe comendo aos pouquinhos, saboreando até acabar, sem deixar um carocinho de fora. Acho que ela vai gostar muito desse presente”.
De repente, sem que ela percebesse a aproximação de qualquer pessoa, uma voz grave e suave cumprimentou-a;
― Bom dia, menina. Que bela maçã você tem em mãos ¾ falou um homem alto, magro, bem vestido, de excelente aparência e que se encontrava exatamente atrás dela.
Mári empalideceu. Ela estava sentada em uma pedra, sem qualquer possibilidade de fuga. Conseguiu perguntar, quase sem voz:
― O senhor vai me prender?
― Por que eu prenderia uma jovem que se prepara para comer esta bela maçã?
― Mas o senhor viu, não viu?
― Eu não vi, mas se você contar o que você acha que eu vi, vou ficar satisfeito.
― Ah, eu vou contar tudo. Ainda que o senhor me prenda. Estou cheia de remorsos.
― Espere um pouco enquanto eu me sento aí ao seu lado, disse o homem.
Após acomodar-se na pedra junto a Mári ele ficou olhando para a menina, de um modo tão gentil, que ela se pôs a contar toda a sua vida até chegar ao episódio da maçã furtada. Estava tão envolvida no próprio relato que nem percebeu que o homem lhe havia tomado o fruto da mão e o comera todo não deixando nem os caroços, com ar de extrema satisfação.
Quando terminou a história é que Mári deu por falta do presente de sua mãe.
― Vamos embora, menina, vamos embora daqui.
― Devagar aí, seu moço. Eu lhe contei toda a minha história e o senhor se aproveitou da minha distração e comeu o presente que eu disse que ia dar pra minha mãe. Isto é sacanagem! O senhor é um mau-caráter.
Nesse momento ouviram passos no mato. Eram do barraqueiro que seguira a menina.
― Ah, sua ladrazinha. Te peguei. Vai ver estás tentando passar uma conversa no doutor para arrancar-lhe um dinheirinho, pois? Devolve-me a maçã que roubaste da minha barraca. Deixa ver a tua bolsa, que o fruto deve aí estar.
O feirante avançou em direção à menina e tomou-lhe a pequena bolsa de pano onde ela levava os salgados para vender. Evidentemente, nada encontrou.
― Mas eu podia jurar que a maçã estaria contigo, ladrazinha miúda ― gritou o feirante já em estado de exaltação.
Nesse momento o homem, que ao lado de Mári a tudo assistia, interrompeu-o.
― Caro senhor. Acaba de fazer grave acusação a esta jovem, menor de idade, na minha presença. Saiba que sou juiz da Vara de Órfãos e exijo que o senhor apresente prova concreta do furto que diz esta menina ter feito em seu estabelecimento comercial. Caso contrário, resta-lhe retratar-se, pedindo desculpas a ela, agora mesmo. Se não o fizer, prendo-o por acusação leviana a menor. Vamos, estou aguardando. Prova ou desculpas. Escolha.
Mári estava perplexa. Chegara a ter ímpetos de avançar naquele homem porque comera o presente que ela iria dar à mãe e agora ele a defendia.
O barraqueiro, a custo, rosnou um pedido de desculpas, sem mesmo olhar para a menina e retirou-se, resmungando e brandindo os braços aos céus.
― Hoje não é meu dia. Roubam a minha mercadoria e ainda me vejo obrigado a pedir desculpas ao ladrão!
Tão logo o homenzinho desapareceu no meio do mato, Mári voltou-se para agradecer, mas apenas encontrou, sobre a pedra, um pequeno envelope com duas notas de cinqüenta reais. O homem sumira.
A menina, emocionada, recolheu o dinheiro e caminhou em direção a um pequeno quiosque de flores que havia ali perto. Quando se dirigiu à dona da loja dizendo que queria mandar flores, recebeu um olhar de desconfiança. Mári estendeu-lhe as duas notas e arrematou, com altivez:
― Tudo isso aí de flor. Um bocado de cada. São para minha mãe que faz anos hoje. Pode mandar entregar no endereço que está nesse papelzinho, mas tem que ser para hoje.
Recolheu o recibo e já ia embora feliz, quando uma dúvida inquietante invadiu-lhe a cabecinha:
“Será que a mãe não ia gostar mais daquela maçã?”

13.9.08

O Cristo sumiu!


Mês de dezembro, noite quente, lua cheia brotando do mar. Quanto mais sobe, mais exibe sua beleza ocre. Lembra-me a infância, quando eu passava horas me imaginando a saborear aquele belo queijo gigante.
Nas praias da zona sul, todos param para admirar o espetáculo. Ele se repete durante o ano inteiro, mas seu fascínio sempre se exerce sobre os cariocas e os que aqui vivem e têm o privilégio de assisti-lo.
Livre totalmente da prisão do mar, a lua se apresenta, soberana.
De repente, uma criança, para quem, obviamente, o espetáculo nada significa, puxa a mão da mulher que está a seu lado e grita, excitada:
― Mamãe, mamãe, o Cristo sumiu!
A mãe, a princípio não dá a menor atenção ao menino, pois, além da beleza da lua, ainda divide o tempo em conversa com as amigas.
― Mãe, cadê o Cristo, mãe?
A mulher finalmente resolve olhar em direção ao Corcovado e dá um grito angustiado.
― Vejam, vejam, o Tibúrcio tem razão! O Cristo sumiu mesmo! Vamos chamar a polícia, o Corpo de Bombeiros, ligar pra Brasília. Alguma coisa tem de ser feita! O Cristo é nosso! Que história é essa de tirar o Cristo sem nossa consulta? Teriam de ter feito um plebiscito para saber se as pessoas queriam ou não que a imagem do Redentor fosse deletada do Corcovado.
As amigas se entreolham, depois de verificar a ausência da estátua no alto do morro e abanam as cabeças, incrédulas pelo acontecido e pasmas com o discurso da mãe do Tibúrcio.
― Calma, Ernestina! ― pondera a Diocleides. Não é hora de discursos de protesto ou reivindicações. Pode estar certa que, a esta altura, a polícia já foi avisada, porque todos que costumam ver a imagem do Cristo à noite, já devem ter posto a boca no mundo.
― Você tem razão, Di. É preciso manter a calma, mas eu quero o meu Cristo de volta ― resmunga a Ernestina.
A essa altura, as linhas telefônicas estão totalmente congestionadas, nas tentativas de contatos com as “autoridades competentes” e a maioria das pessoas, sem coragem de ir para casa, procura saber se alguém, por ali, teria alguma noção do que está acontecendo.
Ernestina toma uma decisão rápida pelo grupo:
― Vamos à casa da Antonieta. É aqui pertinho e é quase certo que a TV deve estar dando notícias.
E sai, arrastando o Tibúrcio pela mão.
Passam pela portaria como foguetes, sem cumprimentar o seu Praxedes, porteiro do prédio da Antonieta e velho conhecido delas e vão tocar a campainha do apartamento da amiga, ali mesmo no térreo.
― Abre logo, Totonha. Mulher mais lerda. Parece o bicho-preguiça ― rosna a Ernestina enquanto aperta freneticamente o botão da campainha.
Antonieta abre a porta e fica olhando o grupo, sem entender o porquê de tanto barulho.
A Ernestina não perdoa:
― Criatura de Deus! Estava dormindo? Aposto que não sabe que o Cristo sumiu!
― Sumiu mesmo? ― pergunta a Totonha, abrindo enorme bocejo. Pois sumiu tarde! Vocês sabem que nós, do Clube Ecológico “Tudo como nos velhos tempos” não gostamos nem um pouco daquela estátua enorme e engomada poluindo o visual do nosso Corcovado. Que Nosso Senhor não me castigue, mas eu prefiro o morro ao natural, todo cheio de árvores e passarinhos, sem ninguém explorando os turistas para dar uma chegadinha lá em cima.
― Poxa, Totonha! O caso é muito sério. Deve estar dando na TV. Deixa a gente entrar para saber das notícias, suplica a Diocleides.
― Mafalda, vá buscar umas cervejas e umas pizzas, porque a noite promete ser longa! ― ordena outra vez a Ernestina.
― Mãe, mãe. Quero ir pra casa. Não quero mais saber do Cristo. Tô com fome e sono. Não gosto de pizza. Quero Coca.
― Fique quieto, menino, grita a Ernestina enquanto se despenca pelo corredor atrás da Mafalda.
― Mafalda, traga Coca-Cola pro Tibúrcio! Fique quieto, menino. Depois de comer vai dormir na cama da tia Totonha ― arremata a Tina.
― A cama dela é muito dura, mãe. Se o pai estivesse aqui ele ia me levar pro Mc Donald’s e depois íamos para casa dormir. Não gosto mais de você!
Ernestina deixa o filho no quarto da Totonha e volta para a sala, onde todas as amigas estão em frente à TV.
― Tina, nenhum canal está dando notícia sobre o sumiço do Cristo. Será que nós não tivemos uma alucinação coletiva? Que tal se fôssemos todas para nossas casas? Estamos cansadas e tensas. Com certeza amanhã o Cristo aparece no seu lugar e pronto ¾ argumentou Gumercinda, a mais velha e equilibrada das amigas.
― Agora você levantou uma questão muito séria, Guma. Será que estamos ficando doidas, quero dizer doidos, porque o meu Tiba também viu que o Cristo tinha sumido. Todos fomos testemunhas: o morro estava vazio, sem Cristo algum ― rebateu a Tina.
― Então vamos lá tirar a prova final, propôs a Guma, com apoio, inclusive da Totonha.
Saem apressadas, esquecendo do pobre Tibúrcio que, cansado de esperar pela Coca-Cola, acaba dormindo. Abrem a porta do prédio, dão de cara com o magnífico e gigantesco queijo ocre, correm para a praia, viram-se, ao mesmo tempo, para o morro do Corcovado, e vêem, em seu costumeiro lugar de muitos e muitos anos, a estátua do Cristo Redentor.
Ficam as amigas sem saber o que pensar, quando ouvem a vozinha do Tibúrcio, correndo na frente da Mafalda:
― Mãe, mãe, me leva pra casa? O Cristo já voltou pro lugar dele. Vamos embora?
― É o seguinte, minhas caras ― foi logo dizendo a Mafalda. Deu no jornal Nacional, agora mesmo. Imaginem que a Globo está fazendo tomada de cena para a próxima novela das oito, lá no Corcovado e, para obter um determinado efeito, inventou de criar um fundo negro que acabou por encobrir, por alguns minutos a imagem. Concluindo: o nosso amado Cristo jamais deixou de estar no lugar que sempre foi dele.
Apesar dos lamentos da Antonieta, Ernestina, com ar vitorioso encerra o caso:
― Não falei, não falei? Eu sabia que nem eu, nem o meu Tiba e nem vocês estávamos doidos. Doidos são aqueles caras da Globo, que vivem pra perturbar o juízo dos outros. Vamos, filhinho, vamos passar no Mc Donald’s que aquela pizza que a tia Mafalda levou já deve estar fria e horrorosa de comer. Tchau, gente.
E lá se vão, mãe e filho, abraçados e felizes, apontando, ora para a lua, ora para a imagem do Cristo, até sumir na escuridão da rua, rumo ao Mc Donald's.

Hoje é o dia


Taí um dia em que nada deu certo. Sei que a frase não é nada original e espero ser perdoado pela falta de imaginação mas, tendo em vista tantas turbulências e frustrações de uma só vez, só posso mesmo dizê-la e até repeti-la.
Quebrei o relógio de cabeceira, ao tentar desligá-lo, às seis da manhã. O tempo estava chuvoso, a cama quente e macia. O maldito tocou bem no meu ouvido, como que dizendo:
“Levante-se, preguiçoso. Siga meu exemplo, que fiquei a madrugada toda acordado.”
Não suportei ironia e varejei-lhe a mão, espatifando-o contra a parede. Resultado: cortei dois dedos (será que ele me mordeu?) e ainda vou ter de comprar um outro despertador, sei lá se mais cínico do que o falecido e que, certamente, vai continuar a me “dizer” coisas semelhantes.
No banheiro, não pude deixar de me lembrar de um velho sucesso de Elza Soares (ainda anda por aí), cantando uma paródia do memorável In the mood (que saudades da orquestra dançante do Glenn Miller):
Edmundo nunca sabe bem o que faz
Ele é um sujeito distraído demais
Dizem que uma noite quando em casa chegou
Antes de deitar ele fez tal confusão
Que o chinelo no seu travesseiro botou
E se ajeitando foi dormir no chão...
E por aí seguia a paródia. O Edmundo era mesmo um desastrado e chegava a encher a banheira com uma colher e ir para a cozinha fritar o roupão.
Eu, que não pretendia fazer as mesmas tolices do Edmundo, agi com a maior das cautelas: pus pasta de dentes na escova, fiz a barba (sem me cortar), mas quando fui dar descarga no vaso ― ó horror! ―a água subiu, rapidamente, trazendo consigo o que nela boiava. Transbordou tudo e o banheiro ficou uma lástima. O jeito foi fechar o registro e fazer a limpeza. Com isso, meu tempo encurtou. Corri para a cozinha, sem roupão, para não fritá-lo e preparei um café gostoso. Enchi meia xícara e quando derramei o leite por cima, verifiquei que havia se transformado em vistosa coalhada.
Lá se foi o meu café, pia abaixo. Vagarosamente, contei até cinqüenta e abri um sorriso, dizendo para mim mesmo.
“Melhor esquecer esse tal de café da manhã. Fica para amanhã. Viram como ainda consigo fazer graça na desgraça?”
O resto da coalhada, joguei direto no lixo. Dava até para comer, mas eu queria vingança!
Ao sair vi que o ponteiro da gasolina estava no vermelho e que desse jeito somente andaria poucos quilômetros. Lá fui eu abastecer e enquanto o frentista foi passar o meu cartão de crédito, aproveitei para relaxar, olhando o movimento em volta do posto.
― Doutor, seu cartão foi recusado.
Era o frentista. Durante a semana, com a proximidade do Natal, andei usando o cartão para a compra de presentes. Resumindo: o limite havia ido para o espaço. Por sorte, ainda tinha algum dinheiro vivo que deu para pagar a despesa, mas fiquei reduzido a zero.
― Quer que veja a frente, doutor? Óleo? Água? Filtros? Lavo os vidros, doutor?
― Fica para outra vez. Estou atrasado.
Um chato, o frentista. E o maldito insistia em me chamar de doutor. Segui para o trabalho com o humor acendendo luzinhas vermelhas a toda hora.
Na repartição, ninguém falou comigo. Passavam sem responder aos meus cumprimentos. O chefe me chamou uma infinidade de vezes. Assuntos corriqueiros. Parece que fazia para me irritar ainda mais. Pediu-me que redigisse uma carta comercial, alegando que a secretária tinha ido entregar papéis importantes à diretoria. Fiquei quase uma hora tentando e as idéias, quando me vinham acabavam por ser mal expressas em frases pessimamente construídas.
Terminado o expediente, tomei meu carro e voltei para casa mas, ao entrar na garagem, desatento como estava, bati no muro e arranhei um dos paralamas. Berrei, xinguei a mim mesmo, dei socos na cabeça. Subindo de elevador só conseguia pensar que, a qualquer momento ele iria parar, mas isso não aconteceu. Ao saltar, encontrei o corredor totalmente às escuras e fui tateando até a porta. Procurei nos bolsos e não encontrei as chaves. Era demais. Sentei-me no chão, enterrei a cabeça nas mãos e já ia começar a chorar, quando as luzes se acenderam e um imenso coro surgiu à minha frente, puxado pelo chefe da repartição:

“Hoje é o dia
Do teu aniversário,
Parabéns, parabéns
Desejamos que vás
Ao centenário
Os amigos sinceros que tens...”
O bando sabia o quanto eu detestava o “Parabéns pra você” e tinha tirado do baú uma outra canção, própria para arrasar com a paciência de aniversariante. Logo atrás do chefe, uma das funcionárias, alíás muito minha amiga, segurava um cabo de vassoura, com as chaves do meu apartamento na ponta, à guisa de estandarte. Numa de minhas idas para atender ao chefe, os malandros haviam “furtado” o chaveiro do bolso de meu paletó.
Com tantos dissabores, eu havia esquecido do meu aniversário, mas eles, não.
Que delícia ter amigos. Principalmente nos dias em que nada dá certo.

09/12/2005.

Taioba

Passo pela feira do meu bairro e leio na placa do verdureiro: “Taioba”. Repentinamente sinto-me transportado na “máquina do tempo”, rumo ao passado saudoso. Lá estou eu, oito anos de idade, ao lado de meu pai, no ponto do bonde, de cujo número e destino já não me recordo, mas que, com certeza, passava no subúrbio onde nasci.
Sempre gostei das viagens de bonde. O pai me permitia sentar na ponta do banco, desde que eu prometesse ficar bem quietinho, além de enlaçar, na minha, a sua poderosa e protetora mão. E lá ia eu olhando as casas que passavam e reparando melhor nos jardins, quando o bonde parava para recolher novos passageiros ou até mesmo para a descida de um único. O motorneiro (assim era chamado o homem que acionava os controles do bonde) somente dava partida quando o condutor (encarregado da cobrança das passagens) acionasse duas vezes a campainha destinada a sinalizar,também, quando um passageiro queria descer. Nessas paradas eu ria dos cachorros que latiam para o bonde; dos papelotes que as mocinhas usavam para tornar os cabelos encaracolados; das trouxas de roupas que balançavam nas cabeças das lavadeiras, em fantásticos prodígios de equilíbrio, tudo pronto para a entrega aos fregueses; da algazarra que meninos e meninas da escola pública faziam ao tomar o bonde.
Nesse momento senti a mão de meu pai apertar ligeiramente a minha, num costumeiro sinal de “atenção”. Olhei para ele e vi o indicador da mão que não me segurava apontando para um veículo que eu ainda não conhecia e que acabara de parar à nossa frente. Não era verde, como o que sempre tomávamos, mas marrom e não tinha o carro reboque usado pelo “nosso” para recolher mais gente por viagem.
― Vamos pegar esse aí hoje, pai ? ― perguntei curioso.
― Não, filho. Esse aí é o Taioba.
― Taioba? O que é isso? É porque ele tem cor diferente?
― O Taioba é um bonde criado para uso das pessoas que precisam transportar cargas ou objetos que não caberiam nos bondes comuns.
― Quer dizer que o Taioba pode levar as trouxas daquelas senhoras que lavam roupa pra fora?
― Exatamente, filho. Levam, também, cargas maiores, como verduras e legumes de pequenos produtores; levam material de construção como tijolos e sacos de cimento; levam ferramentas de trabalhadores, tudo isso desde que em quantidades e pesos razoáveis. Eles não têm bancos para as pessoas que carregam as mercadorias sentarem Vão todos de pé, no meio, ao lado dos volumes.
― A gente pode viajar no Taioba, pai? Lá num cantinho, sem atrapalhar?
― Não, filho. O Taioba é exclusivo para transporte de cargas e das pessoas donas delas. A passagem é até mais barata do que a do nosso bonde verde, porque a maioria das pessoas que faz uso dele é gente pobre.
― Agora entendi, pai. Foi uma boa idéia inventar o Taioba.
A voz do verdureiro me fez diluir a imagem do passado e me trouxe de volta à feira do meu bairro. Percebi que várias pessoas me olhavam enquanto eu continuava sorrindo, sem tirar os olhos da placa: Taioba.
― Vai taioba hoje, freguês? Está fresquinha. Pode levar sem susto.
― Vou querer toda a taioba que o senhor tem aí.
O feirante encheu várias sacas plásticas com as taiobas e, enquanto pagava, perguntei em voz alta para ser ouvido por todos que estavam em volta da barraca:
― A que horas passa o Taioba?
Ficou todo mundo sem entender nada.


Dezembro, /2004

A gota de papel

Alexandre olhava, de seu quarto, a chuva cair. Ele sempre achava fascinante observar a água batendo de encontro à janela e formando pingos que desciam velozmente, rumo à parte mais baixa da vidraça. Na rua, imensas poças se espalhavam por toda parte. À medida que a chuva aumentava, a correnteza ia invadindo e tomando tudo. O bueiro mal dava conta da massa de água misturada com papéis, garrafas de refrigerantes, copos plásticos, latas de cerveja, mas ia se agüentando. Meia hora depois, sobre ele, só restava um pequeníssimo buraco para manter a rua livre de uma enchente.
O menino começou a lembrar-se das palavras de seu professor de Ciências, que, ao final de cada aula, sempre fazia projeções de imagens mostrando os efeitos danosos da ação do homem sobre a natureza e sobretudo sobre a qualidade de vida da cidade. Só agora percebia como eram sensatas aquelas palavras. Suas reflexões foram interrompidas pela entrada intempestiva do irmão mais novo. Aos berros, o caçula, aí por volta de seis anos, irrompeu no quarto e se atirou em seus braços. Após acariciá-lo e secar-lhe as lágrimas, Alexandre quis saber o que estava acontecendo. Entre soluços, o pequeno apresentou seu grave problema: queria brincar na chuva e a mãe, depois de tentar explicar-lhe, repetidamente, que aquilo era perigoso, simplesmente passara a chave na porta de saída. Alberto ― esse o nome do caçula ― inconformado, correu para o irmão, na esperança de tê-lo como aliado.
Alexandre acalmou o irmão e lhe repetiu quase as mesmas palavras da mãe. O pequeno ensaiou um novo choro, mas foi levado, pela mão, até a janela para assistir à dança de pingos escorrendo pela vidraça. A princípio, Alberto olhou com alguma curiosidade e até esboçou um sorriso, mas logo se cansou e correu de volta ao andar de baixo, já saudoso da mãe e esquecido da proibição. Alexandre voltou a sua vidraça. A chuva dera uma trégua e a água começava a baixar, vagarosamente, sorvida pela goela daquele pequenino buraco que restara na superfície do bueiro.
De súbito, a voz de sua mãe ecoou pelo quarto, chamando-o. Desceu rapidamente as escadas e foi encontrá-la na copa, os dedos tomados por uma crosta de batatas amassadas misturada a um pó branco. Ela estava preparando um empadão para o almoço e precisava de mais farinha de trigo. O filho teria de ir buscá-la, o mais rápido que pudesse, no mercadinho do bairro.
Alexandre jogou por cima da cabeça uma velha capa e saiu à rua, não sem antes dar uma espiada no bueiro, que continuava a recolher a água da chuva através daquele buraco heróico. Pelo caminho ia pensando que tudo aquilo poderia mudar se as pessoas “tomassem consciência de suas responsabilidades de cidadãos e não transformassem a via pública num verdadeiro chiqueiro.” ― como costumava dizer o professor Chegando ao mercado, apanhou logo o pacote de farinha de trigo e já estava indo de volta quando um menino abordou-o pedindo que comprasse um pacote de balas “pra ajudar a família”. Condoído, Alexandre remexeu os bolsos e deu-lhe algumas moedas, recebendo em troca a guloseima. A chuva voltara a apertar e ele, à medida que se aproximava de casa ia saboreando as balas deixando cair, distraidamente, os papéis impermeáveis no chão. Nem reparou que os mesmos, levados pela correnteza, corriam rumo ao bueiro, tornando ainda menor o espaço para o escoamento das águas. Quando atirou o último papel, já estava bem diante de casa. Entrou rapidamente, entregou a farinha à mãe e voltou para o quarto a fim de apreciar seus pingos na vidraça. Quando olhou para a rua, não mais conseguiu enxergar o bueiro. Uma enorme poça já cobria a calçada e avançava em direção à porta de sua casa. Desceu correndo e já encontrou a mãe à porta, com baldes e vassouras, as mãos ainda cheias de massa, empurrando a água que começava a entrar pela sala, enquanto xingava o descaso das autoridades com a limpeza das ruas.
Alexandre tirou os sapatos, arregaçou as calças, caminhou cautelosamente em direção ao bueiro e dele afastou, com o auxílio de um pedaço de pau que achou boiando, toda aquela massa de detritos. Livre dos obstáculos, o bueiro desempenhou bravamente sua função, enquanto a mãe, a sorrir, acenava ao filho com um gesto de aprovação. Após um reconfortante banho, enquanto ainda enxugava os cabelos, ele não pôde deixar de se lembrar das palavras de seu professor de Ciências. Que pena que ele não tivesse sido capaz de aplicá-las na primeira situação prática que se apresentara! Seus papeizinhos de balas haviam colaborado, definitivamente, para o entupimento do bueiro e ele acabou por sorrir, na sua ingenuidade de menino, pensando no último dos papéis, correndo, qual um barquinho desgovernado no meio da tormenta, rumo àquele redemoinho que, a partir de sua chegada, não mais iria existir.

20/02/2006.

11.12.06

10.12.06

Conto de Natal

O mês de dezembro mal começava e as atividades na Lapônia já iam intensas: duendes ajudavam a colocar presentes, sob a supervisão de Papai Noel, que lhes ia dizendo o que pôr primeiro no saco, a fim de facilitar sua tarefa, na hora da entrega; costureiras ajeitavam as calças vermelhas do bom velhinho que, a cada ano aumentavam de tamanho graças, principalmente, à quantidade de doces que consumia, quando da chegada às casas de família, na noite de Natal. Era uma rabanada aqui, uma fatia generosa de panetone ali e, para encerrar, torta de maçã acompanhada de creme de chantili. Papai Noel chegava a revirar os olhos, tamanha a satisfação, mas...o peso ia aumentando.
Nos estábulos a agitação não era menor: as renas eram escovadas e os metais do trenó, polidos. As partes que se haviam desgastado ao peso do usuário iam sendo substituídas.
Na sapataria as botas recebiam atenção especial, tratadas com esmero para, por mais um ano, resistirem ao intenso frio, ao contato com a neve e com as paredes ásperas das chaminés por onde Papai Noel gostava de entrar.
Na noite de Natal tudo estava visto, revisto e conferido. Noel acertou os óculos, repassou as listas, subiu no trenó, sacudiu as rédeas e levantou vôo, despedindo-se, com vigorosos acenos, de seus ajudantes e, em especial, de Mamãe Noel que, como de hábito, ainda lhe fazia as derradeiras recomendações.As renas deslizaram rapidamente pelos céus e Papai Noel foi cumprindo, uma a uma, suas entregas pelo mundo, com a eficácia de sempre. Olhando a longa lista viu que as próximas deveriam ser feitas no Brasil e, sacudindo mais uma vez as rédeas, ordenou docemente às renas que para lá se dirigissem.
“Este mundo mudou muito ― pensou Noel. Tudo ficou estranho. Quase não consigo mais encontrar chaminés nas grandes cidades. Tenho de descer sobre edifícios altíssimos, retirar telhas, ficar procurando em corredores nem sempre bem iluminados, os números dos apartamentos e até já me acostumei a dar um “jeitinho” de abrir portas ou janelas. Depois, dá um trabalhão fazer o caminho de volta, repondo tudo nos devidos lugares. Além disso, os pedidos estão ficando cada vez mais complicados: bicicletas com uma infinidade de marchas, jogos eletrônicos, videocassetes, DVDs, microcomputadores, patins com quatro rodas, em linha. Os pobres duendes têm, a cada ano, cada vez mais trabalho para produzir tudo isso.”
Seus pensamentos foram interrompidos por uma suave freada das renas, indicando o local da primeira entrega: a Mansão da Lagoa, no condomínio Rosa Chá, em plena Barra da Tijuca. Papai Noel ainda teve tempo de olhar em volta e comentar, abrindo largo sorriso:
“Sempre linda esta cidade. Quando terminar as entregas pretendo dar uma passadinha lá pelos lados do Corcovado e render justas homenagens ao Cristo Redentor.”
Estacionou o trenó em pleno ar e reparou que aquela casa possuía chaminé. Preparou o saco, amarrou uma corda no trenó e começou a descer rumo a ela.De repente, uma luz intensa quase o cegou e ele ouviu vozes ao lado da casa. Uma delas, mais poderosa, lhe gritava:
― Desce daí, velho safado, senão vamos te mandar chumbo. Que ladrãozinho mais cheio de idéias. Até helicóptero disfarçado de trenó o bandidão bolou. Vamos te dar um couro, marginal.
Papai Noel ainda tentou convencê-los com sua famosa risada, mas em vão.
― Tem um minuto para descer, ou leva bala! berrou-lhe mais uma vez aquele que parecia ser o chefe do grupo.
"É a primeira vez que tenho tão singular recepção, pensou Noel consigo mesmo. Vou descer e me identificar. Assim acaba essa brincadeira e posso continuar com as entregas.
Fez sinal para as renas e elas o pousaram, suavemente, ao lado do grupo.
― Ho, ho, ho, meus amigos. Estou trazendo os presente da garotada desta casa.
― Aí, mermão. Inventa outra. O papai da garotada daqui já comprou tudo e deixou junto da árvore. Nós mesmos fomos encarregados de fazer a decoração da sala. Agora vai explicando direitinho essa tua jogada pra gente aprender e evitar futuros assaltos como este. Vai, desembucha logo.
Noel não estava entendendo aquele tipo de linguagem. Ficou parado, sem ação e recebeu uma bofetada que lhe amassou um dos aros dos óculos. Caiu e foi algemado pelos seguranças do condomínio.
― Por que me bateu, senhor? Só estou querendo cumprir minha missão de todo ano.
― Cala a boca, marginal. Levanta que já chamamos a patrulhinha pra te levar pra delegacia.
O velhinho foi sendo empurrado e ficou de pé, encostado a uma árvore do jardim da mansão.
“Que estranho ― pensou consigo mesmo. Deve ser alguma brincadeira moderna para me recepcionar. Só que aquele tapa quase me quebra os óculos e eu não tenho outros. Mamãe Noel sempre diz para eu trazer um par de reserva e eu acabo esquecendo.”
A patrulhinha chegou e, após troca de cumprimentos com o grupo, os soldados empurraram Papai Noel, que caiu no banco de trás, diretamente contra a porta do outro lado do carro. Um “galo” surgiu imediatamente em sua cabeça que, de tão confusa, já não articulava os pensamentos com clareza, mas ainda conseguiu ouvir a gritaria dos homens:
― Pega, pega essas hienas. Não deixa fugir.Vários tiros foram dados e o chefe do grupo esbravejou:
― Cambada de incompetentes. Aquilo não são hienas. São imitações de renas para camuflar o helicóptero, que deve ter um mecanismo de vôo automático sincronizado com o relógio desse, desse...Papai Noel. Vocês não são capazes de acertar num elefante a dois metros de distância. Tinha de mirar nas hélices. Nas hélices, suas bestas.Os seguranças ouviram em silêncio e apenas se entreolharam. Nada disseram, mas cada um tinha a certeza de não ter visto nada que se parecesse com hélices e muito menos barulho e ventania de helicóptero decolando.A sirene da patrulhinha anunciou a partida e, em breve, Noel era retirado do veículo debaixo de empurrões e cascudos. Ele mantinha os olhos fechados para imaginar que tudo aquilo não passava de um momentâneo pesadelo. Quando os abriu estava diante de uma grande mesa onde um homem, em mangas de camisa, o olhava com ar de superioridade.
― Bom dia, Papai Noel. Que lindos brinquedos o senhor deve ter aí na sua sacola. Certamente os que trouxe para entregar ao meu filho devem estar entre eles. Vamos fazer um trato: se o senhor me disser o que ele lhe pediu, está livre e merecedor de todas as desculpas pela ação meio vigorosa dos patrulheiros ― falou o delegado com voz sarcástica e sorriso de desdém.
― Se o senhor delegado me disser o nome de seu filho, me der o seu endereço e me deixar consultar a minha lista eu logo lhe direi ― respondeu Noel.
― Detetive Pega Leve! Solte uma das mãos do querido Papai Noel.
― O senhor tem certeza, doutor Fagundes? Olha que ele pode ser perigoso.
― Pode deixar. Eu me garanto.
O delegado abriu a gaveta de sua mesa e de lá tirou uma escopeta, deixando-a em cima da mesa, bem ao seu alcance.
Assim que teve solta uma das mãos, Papai Noel ficou aguardando as informações que pedira ao delegado.
― Aí, Pega Leve! O otário tá mesmo a fim de debochar da minha cara. Confere aí, marginal. Nome do menino: Nepomuceno de Assis Cortamundo. Endereço: rua da Páprica Madura, 87 ― Bairro Iglu ― Vila Kennedy ― Rio de Janeiro.
Noel desamassou os óculos, limpou-os, tirou do bolso, com todo cuidado a lista de endereços e, após consultá-la disse ao delegado:―
"Doutor Fagundes, os dados que acaba de me fornecer não conferem com os que estão na minha relação. O menino Nepomuceno, que se assina Nenê, segundo as informações que escreveu na cartinha para mim, mora na travessa Bento Siqueira, 37 ― casa 2 ― Vila Rosenda ― Rio de Janeiro.
O rosto do delegado empalideceu e o Pega Leve derrubou a xícara de café que segurava. Eles ficaram fitando Noel, mudos de espanto. O endereço era exatamente o do delegado e, ainda por cima, o velho havia acertado com o apelido familiar do Nepomuceno.Após alguns minutos o doutor Fagundes, com voz rouca e quase sumida, disse, entre dentes:
― ...e quais foram os presentes que o meu filho lhe pediu?
Passando a mão suavemente sobre o “galo” que lhe crescera na cabeça, Noel enumerou:― Primeiro uma prancha de surfe, depois uma bola de futebol americano e, finalmente, uma lambreta.
Fagundes arrepiou-se todo. Era exatamente o que o seu querido Nenê tinha escrito na carta a Papai Noel, aberta por ele antes de fazer de conta que a poria no correio, como todo ano.
― Está certo. Estou quase acreditando, mas onde está a carta? ― disse o delegado, a essa altura totalmente confuso.
― A correspondência fica arquivada em meu escritório, na Lapônia, sob administração de Mamãe Noel. Só trago comigo a relação dos endereços, os nomes da crianças e seus pedidos.
― Vá lá, mas quero saber uma coisinha mais antes de deixá-lo ir. Como consegue carregar uma lambreta aí dentro? ― e o delegado apontou diretamente para o saco de presentes que estava ao lado de Noel.
― Simples, doutor Fagundes. Consultada a lista, basta que eu coloque minha mão dentro do saco e pronuncie, mentalmente, o nome do brinquedo para que ele apareça diante de mim, não importa peso ou tamanho.
― O doutor me desculpe, mas é a maior furada do cara aí. Duvido ele fazer uma demonstração agora, diante de nós ― interveio o Pega Leve.
― Gostei da idéia, Pega. O velhote deve é ler pensamento. Maior impostor. Enquadro ele nas penas da lei, já, já. Vamos lá Papai Noel. Tire a lambreta do Nepomuceno de dentro desse saco. Agora!
Papai Noel olhou os dois e respondeu tranqüilamente:
― Eu não devia fazer isso, doutor. O presente deve sempre ser deixado na casa de quem o pede por carta, mas como os senhores estão duvidando da minha identidade e eu preciso acabar de fazer as entregas dos presentes, vou pedir ao doutor Fagundes o favor de encaminhar ao Nenê a lambreta, com um abraço e um beijo carinhoso.Doutor Fagundes e Pega Leve recuaram discretamente e Papai Noel, com a maior naturalidade, meteu a mão no saco de brinquedos, balbuciou umas palavras e, ao retirá-la, fez surgir no meio da sala o seu trenó com as seis renas . Foi papel para todo lado. As renas, assustadas por se verem dentro de cômodo tão pequeno, começaram a dar coices e acabaram por quebrar a mesa do delegado. Ele e o detetive saíram porta fora, apavorados, aos berros de socorro, enquanto Papai Noel, tomando assento em seu trenó, atravessava a janela balançando a cabeça em sinal de desaprovação:
― Este mundo está mesmo louco. Como é que alguém ainda duvida que eu exista? Ho, ho, ho.
O inquérito administrativo aberto para apurar os fatos e os prejuízos causados aos cofres públicos, tais como: mesa de jacarandá da Bahia, totalmente destruída e janela do gabinete do delegado desaparecida está parado porque os peritos não conseguiram descobrir a causa de tudo e mais confusos ainda ficaram porque nem têm idéia de como fezes de animal para eles desconhecido foram parar em todas as paredes, impulsionadas, certamente, pelos possantes ventiladores existentes no local.
O Pega Leve entrou com atestado médico alegando estresse e pediu férias no dia seguinte ao acontecido.Quanto ao doutor Fagundes, conta-se que nunca mais foi o mesmo. Pouco fala com os funcionários da delegacia e deu entrada no seu pedido de aposentadoria, embora ainda não tenha completado vinte anos de serviço. Vive pelos cantos da repartição, fuma furiosamente, rói as unhas e toma café o dia inteiro. Às vezes ri alto e nervosamente, repetindo sempre a mesma ladainha, que todos já sabem de cor:
- Não é que o f.d.p. do Papai Noel existe mesmo? Eu vi, eu vi. O Pega Leve estava comigo. Ele viu também. Podem perguntar. Papai Noel existe mesmo. Ele e suas malditas renas.

E se?
A notícia mais sensacional destes últimos tempos foi a prisão de Sadam Hussein. Não cabem aqui comentários político-ideológicos a respeito. Nossa abordagem tem outros caminhos.
Vamos começar aí pela década de 70, do finado século XX, quando foi noticiada a chegada do homem à Lua. Quem viveu naquela época tem claro na retina a filmagem da famosa cena em que os astronautas, após descerem da nave, dão saltos em câmara lenta, num balé que emocionou os espectadores. Ao fundo, elevações típicas da paisagem lunar.
Na noite em que todos vibravam com as imagens do homem chegando à Lua, dona Cremilda, minha faxineira, mulher inteligente e interessada em tudo que acontece no mundo, quando viu os astronautas pulando na superfície lunar disse, na maior tranqüilidade:
― Ah, meu filho. Você acredita mesmo que eles estão na Lua? Para mim isso aí é mentira. Aquele fundo é todo de papelão pintado. Boa noite que eu estou indo dormir.
Anos depois de se aposentar encontrei-a na rua, os cabelos inteiramente brancos, o ar de batalhadora incansável ainda se refletindo no rosto e arrisquei:
― E aí, dona Cremilda? Ainda acha que o homem não esteve na Lua?
― Ah, meu filho. Aquilo foi tudo mentira. Eu vi um filme igualzinho na televisão, outro dia mesmo. Não sei como você, que estudou tanto, continua acreditando naquela enganação...
― Tá bom, dona Cremilda, vamos falar de outro assunto. A senhora soube da prisão do Sadam Hussein?
― E como não haveria de saber, meu filho. Só se fala nisso lá no bairro. O pessoal meu amigo diz que não é o homem, não. É, é, ... um sócio dele.
― Um sósia, dona Cremilda.― É, um homem muito parecido com ele. Na terra do Sadam o que mais tem é homem de cabelo preto e bigodão. Parece tudo com o Sadam. O pessoal do bairro diz que não é ele e que o Bush inventou essa história para continuar mandando nos Estados Unidos.
― Como é que é isso, dona Cremilda? O pessoal acredita que o presidente Bush montou uma farsa para garantir a reeleição?
― Isso mesmo, meu filho. Essa falsa que vo
cê falou aí. Tudo armação. Do Bush junto com o Runsfel e a Condessa.
― Condessa... Ah... entendi. A Condoleeza.
― Tudo farinha do mesmo saco. Pra mim o Sadam está vivinho da silva, na Europa. ‘magina ele ficar num buraco, com cara de mindingo, cheio de piolho e com aquele monte de dinheiro perto dele. Arranjaram um maluco, treinaram ele e agora ficam dizendo que é o Sadam.― Muito interessante, dona Cremilda. E quanto à chegada de uma sonda espacial a Marte. Viu que bonita a paisagem avermelhada e cheia de pequenas pedras, com montanhas ao fundo?
― Olha, meu filho, o papo ta legal, mas o meu ônibus vem chegando. Foi muito bom ver você, mas aceite um conselho da velha que vê as coisas da vida como elas são: pare de continuar acreditando em tudo que americano diz e mostra. Eles sempre fazem uma propaganda danada e aproveitam para levar as historinhas para o cinema e ganhar muito dinheiro. Cê sabe que tá cheio de bobos pra ver essas mentiras, num sabe? O meu dinheiro suado é que eles não levam fácil. Lembra que foi assim com a tal chegada na Lua? Daqui a pouco vem aí um filme sobre a prisão de Sadam e, em seguida, outro sobre as sensacionais descobertas de pedras e morros vermelhos em Marte. Pode escrever o que a velha diz. Um beijo, meu filho.
Acenei-lhe um adeus, mas fiquei pensando: e se dona Cremilda tiver mesmo razão? E se o homem nunca pôs os pés na Lua? Com que cara eu fico depois de ter passado horas a fio, madrugada a dentro, diante da TV, vendo um “filminho” bolado nos estúdios de Hollywood? E se os americanos arranjaram mesmo um “sócio” do Sadam Hussein para reeleger o Bush ― o que pensarão de nós as próximas gerações quando a verdade vier à tona?
Começo a achar que melhor seria se eu não tivesse reencontrado a dona Cremilda...

O mar
Acordo na madrugada e não mais consigo dormir. Enrolo-me nas cobertas, embora faça calor e me encolho todo. Agora, além de insone estou encharcado de suor. Em desespero tento o velho truque da concentração em uma palavra, que vou repetindo, compassadamente, à exaustão. Também não dá certo e, dali a pouco estou detestando aquela pousada, de tão agradáveis lembranças e associações. Reza? Nem pensar. Criado no catolicismo, sabia todas de cor mas, a partir da adolescência contestadora, fui esquecendo um pedaço desta, aquela por inteiro e, ao cabo de poucos anos, nem Ave-Maria me era possível levar até o fim.
De repente, no silêncio da noite, um ruído, ao longe, me chega aos ouvidos. Levanto-me e saio em direção ao som que me atrai. Desço uma rua longa, com luzes brilhando nas pedras irregulares do calçamento e já agora percebo que, à medida que me aproximo do fim da viela, o ruído se transforma em estrondo forte. Ao contornar uma curva, deparo-me com o mar que, de ressaca, atira-se implacável contra a encolhida areia da praia. Aproximo-me, até quase ser tocado pelas águas e aí me sento para apreciar o espetáculo. O verde escuro, batido pela fraca iluminação da rua, assume variedades de tons que se misturam com as franjas brancas de espuma tecendo rendas nas cristas das ondas. Intermináveis túneis vão se formando, logo abaixo do topo das vagas e percorrem toda a extensão da praia, lançando-se sobre ela, formando grandes valas que logo se transformam em extensas e rasas piscinas. A água banha meus pés. Sua temperatura é morna e acolhedora. O vai-e-vem das ondas é contínuo e o barulho começa a me embalar. Deito-me e deixo-me envolver. Tenho visões ciclópicas. Sinto-me, sultão, cavaleiro andante, selvagem de perdidas ilhas do Pacífico. Sou rei de uma terra onde as injustiças não existem e onde a palavra violência sequer consta dos dicionários. Derroto dragões e ofereço minhas vitórias à amada. Velejo tranqüilas lagoas, em barco todo branco, que comando, qual velho e experiente marinheiro ou então me espreguiço ao sol morno e maravilhoso, preparando-me para inebriantes mergulhos. Sou Netuno, comandando com meu poderoso tridente, os humores do mar e a vida de seus habitantes. Estou em transe e dele apenas saio quando a água já me cobre os ouvidos. Quero assim continuar, mas a maré me puxa, com doçura, para o mar. Levanto-me, totalmente anestesiado. Penso ainda ver cavalos-marinhos circulando em minha volta, mas percebo que a euforia vai dando lugar à realidade. Caminho de volta. A distância de volta ao quarto parece-me mínima. É como se eu flutuasse. Subo as pequenas escadas, vagarosamente, empurro a porta, atiro-me sobre a cama e, antes que possa avaliar o que comigo se passou, mergulho no mais profundo, acolhedor e paradisíaco de quantos sonos já pude desfrutar em toda a minha vida.

8.12.06

Trapaça da sorte

Trapaça da sorte


Um clássico ou um tema social? Hitchcock me agrada, mas Woody Allen sempre tem um lugarzinho especial na minha preferência.
Estou nessa dúvida de cinéfilo quando entra na locadora uma jovem sorridente. Cumprimenta o gerente e vai direto a uma grande estante de fitas videocassete, sem tomar conhecimento da minha presença. A loja está em fase de reorganização e as indicações sobre temas, atores e diretores ainda são precárias.
Olho-a, discretamente. Bonita e confiante, ela cantarola, despreocupa, enquanto vira a cabeça, ora à direita, ora à esquerda, tentando ler os títulos.
Depois de algum tempo ela se dirige a um empregado da loja.
― Oi, moço! Eu queria rever um filme que achei muito bom, mas não consigo localizar. Pode me ajudar?
― E qual é o nome do filme, senhorita?
― Do nome eu não me lembro, mas era um com um ator alto e muito bonito.
― É pouco. Preciso de alguma “pista” mais concreta.
― Pista...pista...Ah, já sei: ele era louro e tinha olhos azuis.
― Humm... Alto, bonito, louro, olhos azuis...Vamos adiante. Diga mais alguma coisa, por exemplo, sobre o tema do filme.
― Ah, o filme era... assim... sobre o amor desse lindão por uma mulher também bonita. Agora me lembro bem: eles se beijavam no final do filme.
― Certo, eles se beijavam no final...A mulher era bonita e eles se beijavam no fim. É pouco, é muito pouco
― Pera aí! Ele torcia por um time de beisebol e ela, eu acho não torcia por time nenhum, mas me lembro que ambos tinham dentes perfeitos.
― Senhorita, vamos fazer o seguinte. Anote aqui nesta folha de papel todas essas informações e eu lhe prometo que vou fazer uma pesquisa profunda em nosso acervo. Entre os trinta e cinco mil títulos que temos, certamente vou localizar esse filme. Tão logo consiga, eu entro em contato. Ah, não esqueça de deixar o número de seu telefone..
― Ei, que papo é esse? Venho aqui querendo encontrar um filme, você não me ajuda em nada e ainda quer o meu telefone? Vá se catar, seu bolha!
E a mocinha saiu pisando duro, batendo com força a porta da locadora.
― Que geniozinho danado! ― arriscou o funcionário dirigindo-se a mim.
Nada respondi. Apenas balancei a cabeça afirmativamente.
Escolhi um filme qualquer, paguei e encaminhei-me, rapidamente para a saída, impressionado com a cena surrealista que presenciara. Ia tão concentrado que acabei trombando com a “mocinha do filme”, tão logo abri a porta.da loja. Ainda tentei desviar-me, mas o esbarrão foi inevitável. Gelei, só em pensar no escândalo que ela poderia fazer, diante de uma ocorrência comum do dia-a-dia, mas eis que a jovem, toda sorridente, enfiou-me um papelzinho no bolso da camisa e arrematou:
― Pra’quele bolha nunca que eu ia dar o meu telefone, mas que tal você me ligar hoje à noite, depois da novela das oito?
Saí dali com a cabeça rodando.
“Ligo ou não?” — era a pergunta que me martelava a cabeça.
Afinal, apesar de ser uma graça de menina, ela havia tomado a iniciativa, o que para a minha formação machista era um complicador. E tinha mais: aquele arzinho petulante me intimidava. Como não sou da geração dos “ficantes”, só podia conceber um encontro, pelo menos com uma perspectiva de namoro “para a gente se conhecer melhor” — como se dizia nos velhos tempos.
Exatamente ao final da novela das oito, ou seja, por volta das dez horas da noite, liguei para o número do cartão e enquanto aguardava , ia repetindo o nome: Tatiana.Tatiana, Tatiana. Muito na moda.
— Alô, com quem quer falar?.
— É a Tatiana? Eu sou aquele rapaz da locadora, para quem você deu o seu cartãozinho....
Não consegui terminar. A voz do outro lado ficou estridente e respondeu:
— Nem quero nem saber o seu nome. Você deve ter achado o meu cartão de visitas e vem com essa conversa que eu lhe dei. Que papo mais sem graça.
De início, gelei. Afinal, tinha feito papel de bobo, ligando para uma mulher linda, mas desequilibrada. Depois o sangue me subiu e eu a interrompi:
— Sabe do que mais, sua doida? Já perdi tempo demais com você.
E bati-lhe com o telefone. Estava furioso e decepcionado. A maneira doce como me dissera, ao pé do ouvido: “...que tal me ligar hoje à noite...?” em muito se diferençava da voz agressiva que me respondera há instantes.
De repente, o telefone toca. Fico na dúvida se atendo. A infeliz poderia ter um identificador de chamadas e estaria me ligando para continuar com as suas grosserias. Após quase dez toques, tomei do aparelho, disposto a ser o mais agressivo possível.
— Com quem quer falar? — fui logo dizendo, num tom seco e duro.
— Eu acho que liguei errado. Pensei que era para uma pessoa que conheci hoje, na locadora. Queira me desculpar — arrematou.
E desligou.
Eu já não estava entendendo nada, mas não podia deixar as coisas desse jeito. Tornei a ligar.
— Alô?
A voz era a mesma de poucos instantes.
Arrisquei:
— A Tatiana está?
— Não. Ela acaba de sair. Quem está falando?
Do outro lado, eu ia matutando: “deve ser outra armação. Assim que eu abrir a guarda, ela vem outra vez com os desaforos. Vou lhe dar corda para ver se não é isso mesmo”.
Prossegui:
— Quem você acha que está falando?
— A voz se parece com a daquele rapaz que eu encontrei na locadora, mas está tão agressivo... Não quer continuar a conversar comigo?
A confusão aumentava na minha pobre cabeça. Ela aparentava tranqüilidade. Meio ressabiado, respondi.
— É, sou o rapaz da locadora, mas me responda só uma coisa. Foi você que me atendeu há poucos minutos atrás?
— Não! Deixe eu lhe explicar. Aquela moça que estava na loja era eu, mas o cartão que lhe dei pertence a minha prima, Tatiana, porque o meu telefone quebrou e eu tenho usado o dela para contatos. Ela esteve aqui até poucos minutos, mas saiu depressa, quando eu cheguei e nem pudemos trocar palavras. O meu nome é Cíntia. Pelo visto, você falou com ela e não comigo.
Será que Cíntia estaria dizendo a verdade ou era mais uma armadilha que me preparava? Aquela história de cartão da prima...
— Está bem Cíntia. Vamos nos encontrar hoje? Tem um barzinho perto da locadora e poderemos conversar para esclarecer uma dúvida que ainda tenho. Depois da novela das oito, está bom? Meu nome é Gustavo — menti — e espero que você não se atrase.
— Combinado, Gustavo. Depois da novela das oito.
Encurtando a história. Cíntia era a doce Cíntia, mesmo. Acabei por lhe dizer o meu verdadeiro nome e ela esclareceu minha dúvida.
— Tive um namorado que me tratava mal e resolvi que, dali para frente eu faria as minhas escolhas, do meu modo. Só que, depois daquele charme todo que joguei para cima de você, fiquei preocupada que me julgasse “uma qualquer” .Eu, realmente, gostei do seu jeito meio tímido e notei que me olhou algumas vezes, até com insistência. Para não perder a ocasião de revê-lo, resolvi pôr o cartão da Tatiana no seu bolso, mas não havia como explicar para você na hora. Corri para a casa dela, após a novela, mas acabei chegando um pouco tarde. Ela é assim mesmo. Às vezes arrogante, às vezes malcriada. Tem também seus traumas afetivos. Aquela cena que armei para cima do vendedor foi sugestão dela. Tudo pra chamar a sua atenção. Você me perdoa?
E tinha como não perdoar? A voz era doce, os olhos meigos e brilhantes. Não havia como escapar. Estávamos perdidamente apaixonados. Namoramos, casamos e hoje, quando recordamos como tudo começou ela me olha e diz, com aquela voz suave e terna:
- Destino, meu amor, destino. Foi ele que nos empurrou, quase que ao mesmo tempo, para dentro daquela locadora.

20.8.06

Ó Deus!

Subo flutuando, lentamente, e aproveito para prestar atenção a tudo que me vai em volta. À minha esquerda, o Pão-de-açúcar, sem qualquer vestígio de bondinho ou estação. Tudo ao natural, somente árvores em volta. Que sensação estranha. À direita, o Corcovado, mas, onde está o Cristo? Nem sinal dele e muito menos dos bares, escadarias e escadas rolantes que cada vez mais isolam a estátua. Continuo a subir e dou por falta dos barracos da Rocinha e do Vidigal. Tudo coberto de densa vegetação. Do alto vejo a curvatura de Copacabana, sem qualquer edifício construído, tudo rigorosamente selvagem.
Uma olhada para os lados da Tijuca e revejo a casa de fazenda magnífica, estilo colonial, plantada no alto do morro do Turano, sem favela alguma e muito menos faculdade por perto.
Céus, alguma coisa de grave ocorreu com o meu Rio de Janeiro! O silêncio é total. Nenhum carro pelas ruas, se é que vielas de barro podem ser chamadas de ruas, pois é o que vejo por todo lado. Poças de lama enormes cobrem o espaço que antes era margeado por avenidas litorâneas e só reconheço que aquele lugar é a praia de Ipanema porque ao fundo aparece o morro Dois Irmãos. Uma rajada de vento me empurra para os lados da zona norte e eu percebo que o Maracanã desapareceu do mapa. O maior estádio do mundo não existe. A seu lado está uma linda colina que eu acabo por identificar como sendo a Mangueira, sem qualquer barracão de zinco. Onde estão as linhas de trens da Central do Brasil (eu acho que o nome já mudou!)? Cadê a Presidente Vargas? Onde foi parar a igreja da Candelária? Uma vasta planície me faz desconfiar que estou passando pela outrora Avenida Brasil e nem vejo sinal das Linhas Amarela e Vermelha. O fundo da baía de Guanabara é límpido e quanto à favela da Maré ― nem pensar. Em seu lugar um imenso espelho d’água com peixes saltando a toda hora. E a Universidade Federal do Rio de Janeiro ou Fundão, como é mais conhecida? Nada. Tudo água transparente. Contam que D. João, ao chegar ao Brasil, costumava tomar banhos de mar por aquelas bandas.
Já estou começando a gostar do que vejo quando me sinto puxado por mão forte, rumo às alturas. O deslocamento é tão rápido que quase perco o fôlego.
No momento seguinte estou em um lugar todo branco, em frente a uma cadeira alta, onde uma figura sem rosto aguarda minha aproximação. Dirijo-me a ela e pergunto:
― Onde estou?
Não há resposta.
― E quem é o senhor? ― insisto.
― Você não devia perguntar tanto. Seria melhor esperar que eu lhe explicasse o que acontece, pois pouparia seu fôlego.
― Obrigado. Estou aguardando as perguntas, então.
― Ótimo. Vamos lá. Onde acha que está?
― Não faço a menor idéia. Só sei que, pelo caminho, encontrei a cidade onde nasci, completamente modificada.
Tenho vontade de perguntar o que havia acontecido, mas me lembro-me das palavras iniciais do homem e me contenho.
― Vamos direto ao assunto. Você acaba de morrer e está realizando aquele velho sonho de ver sua cidade no tempo em que a violência e os maus costumes ainda não haviam invadido tudo.
Engulo em seco e me apalpo, discretamente, para ter certeza de que não estou morto. Sinto até um certo incômodo com o beliscão que me dou na barriga, aproveitando que estou com os braços cruzados.
― Se doeu é porque estou vivo ― penso comigo mesmo.
― Olhe, meu caro, é melhor que eu lhe diga que qualquer pensamento que você tenha eu capto imediatamente. Você ainda tem uma certa sensibilidade corpórea porque acaba de morrer, razão pela qual sentiu o beliscão, mas logo tudo isso vai cessar.
― Escute aqui, seu adivinho. Cansei dessa história de que estou morto e não posso fazer perguntas. É melhor me dizer onde estou e quem você é, senão vou me mandar, certo?
O homem nada responde e continua me fitando.
Tento dar-lhe as costas e partir, mas não consigo sair do lugar.
― Tá bem, cara. Você está me gozando e eu sei que tudo não passa de um sonho. Vou ter toda paciência com as suas adivinhações e “poderes”, pois, daqui a mais um pouco eu acordo e vou acabar rindo quando me lembrar de você dizendo que eu estava morto.
― Ah, é? E quanto tempo você acha que vai durar o seu “sonho” ?
― O tempo, nos sonhos, não pode ser medido. Um segundo real pode equivaler a um ano nos sonhos. Agora te peguei.
― Já que é tão esperto, que tal esperar, digamos, um século para “acordar”?
― Viu? Já está admitindo um fim para o meu sonho. Eu vou esperar que ele acabe. Pode durar alguns séculos, mas sei que não passará de alguns minutos no mundo real.
― Como você vai ficar aqui alguns “séculos”, que tal se conversássemos um pouco sobre a sua vida?
― Não vejo mal nenhum nisso. Quando acordar posso até seguir alguns de seus conselhos, seu “sei-lá-quem”.
― Para você não ficar me tratando desrespeitosamente, pode me chamar de Deus.
― Que privilégio! Deus aparecendo para mim em sonho”! Posso tomar sua bênção?
― Nem vou responder. Quando você se convencer de que está morto, quero ver se não vai me tratar com o devido respeito...
― Fica zangadinho não, Deus. Vamos bater um papinho animado, enquanto meu corpo não começa a cheirar mal.
― Por aqui os corpos não têm cheiro. Não são sequer corpos. Você está na categoria de espírito puro, mas, com essa arrogância toda eu diria que tem muito ainda a evoluir. É o que vocês lá na terra costumam chamar de “espírito- de porco”.
― Cada vez mais me convenço, Deus, que você não tem nada a ver com Deus. É, no máximo, um gozador. Vamos lá, faça um milagre dos grandes. Torne os homens todos iguais.
― Você já ouviu falar em “livre arbítrio”, ó insolente mortal?
― Ó Deus, me poupe! Toda vez que é preciso justificar as incoerências religiosas lá vem essa história de “livre arbítrio”. O homem acaba sendo responsável por suas ações através de concessão divina. O que pensar dos pobres africanos, explorados pelos homens brancos há séculos? Como você permite uma coisa dessas, ó Deus ?
― Olhe, já estou me cansando da sua arrogância e ignorância bíblica. Assim sendo, vamos encerrar essa nossa conversa. Você tem razão. É tudo um sonho ou pesadelo e a hora de mudar a paisagem chegou.
O homem recuou alguns passos e bateu palmas fortemente. Na mesma hora senti uma corrente de ar me arrastar fortemente para baixo. Minha cabeça rodava e eu acabei por perder a noção de espaço e tempo.
Desperto num lugar quente e inóspito. Nada que se pareça com tudo que eu conheço Caminho alguns passos até perceber que muitos vultos vêm na minha direção. Ao chegarem bem próximo posso identificar vários de meus conhecidos e parentes que me lançam olhares suplicantes e horrorizados, desaparecendo em seguida.
― Droga. Esse sonho não acaba mais. Onde foi se meter o tal de Deus ?
― Ele não vai mais falar com você, insolente mortal. Mandou-o para mim até que você se convença de que morreu e pague o preço de sua incredulidade e arrogância“ ― soou forte e estridente uma voz atrás de mim.
― E quem é você? Onde estou?
Ouço uma risada medonha e, ao me virar, vejo uma ponta vermelha de cauda, em forma de seta, batendo de leve na minha perna.
― Adivinhe, meu novo pupilo, adivinhe onde você está e quem eu sou?
Belisco-me novamente, por diversas vezes, mas desta vez nada sinto.

29.6.06

No frescão

Bolero de Ravel.
— Oi, até que enfim. Por que somente agora está me respondendo? Deixei um monte de recados. Olha, cancela tudo. Não tem procura. Bem que me avisaram. Manda o relatório por e-mail. Claro que é para hoje! Até!
O homem, sentado quase ao final do ônibus, nervosamente, disca um número e, enquanto espera, rói a unha do polegar livre.
— Alô, eu quero falar com a pessoa que ligou ontem, às 17 horas, para o escritório de Oliveira & Oliveira. Eu sou o Oliveira. É, meu primeiro nome é Oliveira. Eu me chamo Oliveira Oliveira. Não ria! Estou falando sério! Jamais pude perguntar ao meu pai porque me registrou assim, pois ele morreu quando eu ainda era muito pequeno e a mãe jura que não teve participação na escolha. Chame a pessoa e deixe-se de gracinhas.
Nova espera. Mais unha destroçada.
— Bom dia, aqui é o Oliveira. Afinal, faço ou não o negócio? Tá bom, obrigado.
Bolero de Ravel
— Já estava para te ligar. Esquece o que eu disse antes. O quê? Já vendeu. Não era com tanta pressa. Compra de novo. Não fica fazendo pergunta. Compra o dobro. Pura intuição — ele mente. Claro que ainda quero o relatório. Manda para o meu celular. Até.
Oliveira — agora, pelo menos, sei o seu nome — se agita na poltrona do frescão. Mexe no celular a toda hora. Faz nova ligação.
— Astério? Eu ainda. Olha, não debita do Itaú, não. Meu limite estourou outra vez. Faz pelo HSBC. Metade agora e a outra à tarde, que é pra ter tempo de depositar. O quê? Comprou tudo do Itaú? Vou pensar e logo te ligo. Até.
Meus nervos, a essa altura, já estão em frangalhos. Tento ler um texto que vou debater com meus alunos, mas o Oliveira fala tão alto e com tal freqüência que sou obrigado a participar de suas tramas financeiras. O mau humor já me aparece por meio de pequenos tiques nervosos. Começo a fungar e a mastigar em seco. Os amigos dizem que nessas situações eu rumino.
— Com licença, meu querido.
Levanto a cabeça e me deparo com a D. Epiphanya, minha velha conhecida das filas de idosos no Banco onde eu recebo a minha aposentadoria e ela sua pensão de viúva, procurando lugar junto à janela.
— Que bom. Vou ter companhia. Essas viagens costumam ser muito chatas, principalmente por causa dessa gente que parece escolher os ônibus para falar nos malditos celulares — vai logo dizendo a minha amiga, enquanto eu me espremo para lhe dar passagem.
D. Epiphanya é uma senhora, aí por volta dos oitenta anos, baixa, cabelos totalmente brancos, apanhados num volumoso coque e que ostenta uma massa corporal acima do esperado para uma pessoa na sua idade. Muito falante, quase nada afeta seu humor, exceto a aversão declarada aos celulares em ônibus. É bastante esquecida, mas muito atenciosa e delicada com todo mundo.
— Está indo trabalhar, meu querido? Eu sei que você é aposentado, mas que continua no batente. Vou lhe pedir um favor Posso colocar tudo o que está na minha bolsa no seu colo? É que não consegui achar o meu cartão de idosa para pagar a passagem e fiquei de acertar minhas contas com o motorista, assim que encontrasse um lugar. Que homem bom! Liberou a roleta para mim em total confiança.
Sem mesmo esperar por minha concordância, D. Epiphanya foi derramando o conteúdo da bolsa por cima de mim. Lá estava, entre pentes, escovas de cabelo, drops de anis, caneta Bic, moedas de diversos valores e comprimidos para dor de cabeça, o “cartão de idosa”, como ela dizia.
Tomou-o, radiante e lá se foi, agarrando-se como podia, até chegar ao motorista.
Quinta de Beethoven.
— Mamãe. Que bom que a senhora ligou. Vê se eu fechei a torneira do banheiro. Saí tão depressa que tenho quase certeza que deixei ela aberta. Da última vez em que isso aconteceu o banheiro alagou e foi uma parada para enxugar tudo. Teve até que chamar o porteiro, lembra? Mamãe, mamãe, não precisa gritar. Eu sei que estou errada, mas... Droga, ela desligou!
A jovem que acabara de falar, na poltrona ao lado da minha, se inquieta e disca um número:
— Mãezinha, está tudo bem? Não acredito...Inundou também o quarto! Chama alguém. Não, eu não posso mais faltar ao trabalho. Já deixei você duas vezes doente para justificar minhas faltas, só este mês. Não vai dar mais para o enrolar o chefe.. Chama o seu Deonildes, o zelador. Dá uns trocados que ele limpa tudo. O quê? Não tem um centavo para dar de gorjeta para o seu Deonildes? É o fim! Ah, e eu ainda sou a culpada! Depois dessa, arrume-se por aí que eu vou deixar o celular desligado.
A essa altura, D. Epiphanya já vinha me atropelando para retomar seu lugar junto à janela.
— Tudo resolvido, meu querido. Não reparei, mas tem algum chato usando celular?
Nem precisei responder.
Sonata ao luar.
Voz imediatamente atrás de mim, quase sussurrando.
— Atende logo, cara. Eu fui com a tua cara, cara. Fala baixo e disfarça. Escreve o teu nome e deixa cair para trás, que eu estou sozinha. Eu me chamo Diana e tenho dezenove anos. Depois eu explico como consegui o teu número.
Eu estava perplexo! Receber, na minha idade, uma cantada de menina de dezenove anos, pelo celular, no ônibus! Desliguei rápido.
— Poxa, meu querido! Até você falando no celular? — repreendeu-me D. Epiphanya.
— Foi engano. A senhora tem razão. Vou deixar desligado. Não estou mesmo esperando chamada alguma...
— Ah, bom. Assim podemos conversar melhor. A propósito, você viu só o que aconteceu em São Paulo? Que barbaridade. Sabe o que eu penso?
Ela não conseguiu acabar a frase.
Pour Elise.
Do banco de trás vem uma vozinha, suave mas firme:
— Henriqueta? Finalmente você me ligou. Tenho novidades. Consegui o celular do cara que é professor da Camila. Foi ela que descolou. Ela disse para ele que era para poder avisar quando a turma fosse faltar em peso. Assim ele não precisava ficar esperando. Ele caiu feito um patinho. Só que ele está se fazendo de durão e desligou o celular, mas se ele não religar logo, vou dar o número pra todo mundo e ele não vai ter mais sossego na vida. Não é um bom plano? Claro que eu não acho ele bonito. É até feioso, mas tem charme. Um beijo.
Gelei novamente. Era a mesma voz da cantada. Que fazer? Cercado por todos os lados pelos dependentes de celular e tendo junto a mim a marcação severa da D. Epiphanya, como escapar? Examinei as alternativas e acabei optando por um tratamento de choque, uma de maluco. Levantei-me, virei-me de frente para a passagem e proferi o seguinte discurso, em voz alta:
— Senhores passageiros deste frescão. Bom dia. Desculpem interromper a tranqüilidade de sua viagem, mas é que já não agüento mais esses papos furados de vocês. Desde que saímos do ponto, ainda não consegui um minuto de sossego. É filha falando de enchentes na casa; é investidor fajuto de Bolsa de Valores tentando faturar uns trocadinhos, crente que entende do riscado. Tem até jovem tentando me chantagear, passando cantada de segunda categoria. Tudo isso, claro, por celular. Desde que essa geringonça veio a público, ninguém tem mais privacidade. Só se fala nesse maldito aparelho e aos berros. Este ônibus parece até escritório, repartição pública ou coisa ainda pior
Nesse momento encarei a menina que estava no banco de trás. Não devia ter mais de quinze anos. No canto da boca, um pirulito que ela sugava com evidente satisfação. Seu ar, ao me ouvir, era de estupefação.
Prossegui, no mesmo fôlego:
— Como diz o velho ditado, os incomodados que se mudem. Pois é isso que vou fazer agora. Bom dia e danem-se, vocês e os malditos celulares.
A essa altura o motorista já havia estacionado o ônibus e escutava o meu falatório, com absoluto ar de indiferença. Quando caminhei em sua direção, ele simplesmente abriu a porta e me desejou um bom dia, como se nada tivesse ocorrido.
Os passageiros ficaram sem ação, olhando-me. Alguns com ar de compreensão, mas a maioria ou abanou a cabeça negativamente ou olhou para o lado, ignorando-me. Lancei-me para fora, sem mesmo saber, de início, onde estava. Quando recuperei, em parte, o equilíbrio emocional, adivinhem quem estava a meu lado, olhando-me com admiração? Sim, a jovem ninfeta. Antes que eu pudesse esboçar o mínimo gesto ela correu ao meu encontro, deu um pulo e enganchou-se no meu pescoço, enchendo-me o rosto e a boca de beijos, em plena calçada do Tribunal de Justiça. Era hora de chegada dos advogados e todos aplaudiram a cena.
— Você foi brilhante, cara. Agora mesmo é que gamei em você. Me aguarde! — despejou a menina entre risos e distribuição de acenos para todos.
Esbocei um sorriso totalmente amarelo e só consegui dizer aos que estavam mais próximos.
— Essa minha sobrinha é assim mesmo. Tempos pós-modernos. Fazer o quê?
E raspei-me dali o mais rápido que pude, jurando para mim mesmo que iria trocar o número do celular com a maior brevidade possível e que naquela linha de frescão, nunca mais iria pôr os pés!

20/05/2006.

11.6.06

Justificando

Ontem, um amigo me perguntou: "que raio de zumzaravalho é esse que aparece no teu blog"?
Aí vai a explicação.
Fui aluno do Colégio Militar do Rio de Janeiro, aí por volta de...deixa pra lá.
Logo que entrei, depois dos costumeiros e chatos trotes, aprendi com os veteranos o famoso Grito de Guerra com que incentivávamos as nossas equipes de competição (futebol e atletismo, principalmente). Formávamos um bando de alunos, íamos para a lateral do campo ou da pista e a toda hora lá vinha o Grito de Guerra:

Zumzaravalho, pum,
Zarapimzoqué
O queque´, o quequé.
Zum!
Pinguelim, pinguelim, pinguelim
Zunga, zunga, zunga.
Catimaribau, catimaribau,
Uê xau, uê xau
Colégio!

Era um amontoado de palavras inventadas, mas ditas com tal entusiasmo e cadência, que certamente acabavam por mexer com o ânimo de nossos colegas atletas e os incentivavam à vitória.
Quando resolvi abrir este blog tive dificuldades para escolher uma denominação. Usei meu nome e sobrenome, mas sempre esbarrava na mesma observação: esta denominação já existe; escolha outra.
De repente lembrei-me do grito de guerra do CM, escolhi a primeira palavra e pronto. Não deu outra. Felizmente nenhum aluno ou ex-aluno se lembrou disso antes de mim.
Zumzaravalho para todos.